26 de jun. de 2007

Cumplicidade & Curitiba - III


Por Mercedes Gameiro


“O que você Sabe de mim pra dizer isso?” fiquei indignada demais, mas olhando S assim de cima, tudo o que eu queria era que ele Soubesse mesmo tudo de mim. Ai se ele soubesse metade de mim! “Eu Sei o que eu to vendo.” - ele disse com aquele meio sorriso meio lindo me dando essa meia raiva que me tirou do Sério. “Você vê tudo errado. Você não vê coisa nenhuma.” que raiva, que raiva! “Calma! Eu não disse nada tão ofensivo. Senta aqui.”
Senta aqui pra que? Pra escutar mais algum diminutivo? Se ele realmente enxergasse alguma coisa, Saberia que, no mínimo, eu Sou grande demais para caber em diminutivos, mesmo como ofensa.
Eu Só queria estar em casa escrevendo a minha coluna que não é lida, porque pelo menos alguém me paga para não Ser lida. Ninguém vai me pagar para fazer papel ridículo no parque, deitada na grama com um joelho enfaixado fake, e um diminutivo latejando entre as orelhas.

-Você me chamou de mulherzinha!

Mulherzinha…Eu tremo Só de pronunciar essa palavra. Eu ando nesse parque todos os dias e o que mais vejo são mulherzinhas. Todas falando mal de Seus homens – as que conseguem manter um. Todas desdenhando uma amiga, uma prima, uma vizinha. Todas com cabelos da mesma cor, usando a mesma roupa, frequentando os mesmos lugares, lendo o mesmo jornal, planejando como comprar mais sapatos Sem que o valor apareça no canhoto do cheque. As mais jovens talvez ainda não Sejam loiras, mas já prometem ser chatas e desinteressantes, e casar com um moço de bem na Igreja Santa Terezinha, e colocar os filhos no Anjo ou no Positivo, e vestirem todos eles como retardados, e comprar uma casa em Guaratuba ou Caiobá. Ela vai voltar da lua de mel dizendo: “a gente fez Miami e Orlando, né? depois a gente fez Saint Martin, né?”. Argh! Odeio! Elas casam, ficam loiras, vestem-se como Suas mães, falam como Suas mães, agem como Suas mães. Quem viu uma Curitibana de 32 anos viu todas, a não Ser eu, encalhada, Sentada no meu computador, com esse balde de café, sem encher o saco de um marido, a raiz do cabelo revelando que algo em mim não condiz com o meu meio. Eu culpo o tamanho da cidade. Não é possível escapar do padrão quando Só Se tem uns 30 km para cada lado para percorrer.

S continuava ali me olhando como Se eu tivesse me ofendido à toa. Meu rosto estava quente do sol ou da raiva ou do frio que deixava S com o nariz vermelho. A essa altura eu não Sei Se a fumaça que Sai da minha boca é do frio ou do ódio que eu tenho de Ser comparada a essas mulherzinhas - assim mesmo, pra ser uma mulher pequena bem pequena, não em tamanho, mas em "pequenez".

-Era pra você se ofender com a falta de personalidade.

Que besta…ele não Sabe nada!
- Eu Sei que eu tenho personalidade. Muita. Muito mais do que você pode Sonhar. Tanta, que talvez você não Suporte ficar perto de mim para não Ser esmagado por ela. Isso não me ofende: mulherzinha me ofende.
- Por que??
- Porque eu estou muito longe de Ser qualquer coisa que termine com “inha”.

S Soltou uma gargalhada gigante que fez com que 50% da população andante daquele horário olhasse na nossa direção.
- Qual é a graça?

Eu não conseguia Sair dali ou parar de olhar para ele. Eu poderia andar até o meu carro, ou até o bar, ou até o fim do mundo, mas droga! Aquele cara e Seu sarcasmo me intrigavam.

- Brabinha? Enfezadinha? Bonitinha?

Foi difícil não sorrir e eu juro que não queria. Eu culpo o vento gelado da manhã que faz meu cabelo voar e distrair a minha capacidade de ser malvadona.

- Não chega em “lindinha e fofinha” que eu vou embora!

Ele sorriu de orelha a orelha, levantou, me puxou pela mão e foi andando.

- Vem dar uma volta comigo, irritadinha.

Meu joelho doía um pouco, embora não tivesse mais um único arranhão debaixo daquela faixa. Acho que de tanto escrever, aprendi a acreditar nas minhas mentiras. A cada conto eu vivo dentro da personagem e passo dias não Sendo eu mesma. Por isso eu manquei como Se estivesse escrevendo e andando os passos dessa mulher que leva o peso da cruz nos joelhos e tem, segurando sua mão direita, a mão quente e confortável do dono de um sorriso arrasador.

Enquanto caminhávamos devagar até o carro de S, minha raiva foi Sendo diluída em litros e litros do cheiro bom que vinha da jaqueta dele, no jeito dele olhar nas vezes que ele me olhava mais fundo e na risada fácil, que mostrava os dentes brancos perfeitos. Não era assim que eu queria, não era mesmo, mas o parque ficou deserto. Às vezes um perfume forte e doce demais para o horário vinha da pista de cooper denunciando a presença de mais alguma mulherzinha, mas eu já não percebia nada... Só a mão quente de S tirando meu cabelo do rosto de tempos em tempos.

continua...

Cumplicidade e Curitiba - parte II


Conto nº 04
Idéia por Felipe Belão Iubel,

Parte II
por Alice Salles



Com aquela cara de ranzinza que tenho nunca imaginei que ele viria falar comigo. Se bem que falar todo mundo pode, isso não quer dizer nada. S chegou bem perto e dava pra ver a ponta do nariz vermelha por causa do frio. O cabelo todo esvoaçante e a fumacinha que Saia pela Sua boca. Aliás, foi ali que reparei... Mas que boca! Eu provavelmente fiquei o observando demais já que ele perguntou novamente "então moça, como vai o Seu joelho?". Gaguejei um pouco até responder a maldita pergunta com um gélido "tudo bem, tudo bem, obrigada". Claro que dei um Sorriso no fim dessa resposta Seca e esperei por mais alguma reação do rapaz curitibano que estava a minha frente. Ele Só Sorriu Se levantando pois tinha inclinado o tronco a frente para falar comigo e falou qualquer coisa que eu não entendi. Falou baixinho olhando para baixo e eu não entendi. Logo fiquei com cara de boba, jornal na mão, S a minha frente com uma interrogação no rosto. Eu, muda. Nervosa larguei o jornal ao meu lado no banco e perguntei "como disse?". Ele deu uma bela gargalhada e repetiu a sua pergunta. Queria Saber Se eu Sempre andava pelo Barigui. Pensei que era uma cantada furada, disse que às vezes, mas só quando estava bem frio. "Quanto rancor nesse coração", exclamou S, "quanta intimidade que não te dei!", respondi agressivamente como de costume. Ele perguntou Se poderia Sentar ao meu lado e tirei o jornal para me mover para o canto do banco. É assim que age uma mulher com a idade de Cristo e com todo o peso da cruz nas costas. É assim...

S Sentou e enfiou as mãos nos bolsos do blusão preto que estava usando. Tinha um cheiro muito bom, algo que me lembrava do meu pai que não falava comigo há decadas! Pais gaúchos São duros. Não tinha nada que passava pela minha cabeça, fiquei ali amassando o jornal com a minha mão esquerda enquanto S olhava em volta. "Quer caminhar comigo?". "Não posso", respondi "Porque?" S perguntou, "Por causa do meu joelho" respondi. Ele soltou um sonoro "aaahhhh" enquanto ainda observava o parque e suas figuras exóticas. "Quer deitar na grama?", eu choquei! "O que?" perguntei com um berro que saiu mais alto do que a encomenda. "Deitar na grama... Deitar, sabe como? DEI-TAR!", S pareceu um pouco irritado comigo como Se realmente não tivesse entendido a pergunta, mas eu entendi! "Mas deitar pra que?", "Sei lá! Pra fazermos algo diferente!", "Mas, mas...", "Chega de mas, vamos". S Saiu do banco e Se deitou na grama que deveria estar úmida e nojenta. Eu me levantei com uma certa dificuldade enquanto ele estava lá, com as mãos debaixo da cabeça, pernas cruzadas como se estivesse deitado no Sofá de casa. Apoiei meu joelho com dificuldade na grama, a pontinha dos meus dedos no chão com um certo nojo e fui me virando até finalmente deitar. A tensão estava clara no meu Semblante.

S Se virou e disse "Mas que mulherzinha Sem personalidade!". Abri os olhos e uma verdadeira indignação tomou conta de mim. Me levantei em um pulo e enlouquecida perguntei o que ele tinha acabado de falar. S Se levantou e enquanto caminhava pra longe respondeu "O que você ouviu."

CONTINUA....

23 de jun. de 2007

Cumplicidade e Curitiba







por Felipe Belão Iubel

Conto nº 04
Idéia nº 1.012.345
Parte1

Curitiba é o tipo de cidade onde o clima é apenas um reflexo do comportamento das pessoas que a habitam. Pode ser frio e desagradável pela manhã; quente e seco durante o almoço; ou temperado e aconchegante durante a noite.

De todos esses, o temperado e aconchegante é o tema dessa história. Porém, a secura e a frieza vão aparecer de tempos em tempos.

Bom, vou me apresentar, meu nome é Cristiane. Mesmo número de sílabas de Curitiba, apesar de existirem discussões a respeito do “a” do hiato bem no meio do meu nome. Aliás, ter um hiato no nome é sinal de má sorte, pelo menos para mim, em meus relacionamentos foi assim até hoje. Como um hiato, acabamos sempre separados, um em cada casa ou sílaba. Além do número de sílabas, meu nome também começa com “C”, o que é a explicação mais óbvia para ser tão igual à cidade, principalmente no que se refere aos termos aconchegante e temperado. Inclusive é nesse tipo de clima que essa história começa.

Conheci “S” enquanto caminhava no Parque Barigui. Ah! O Parque Barigui. Recanto das espécies mais bizarras de toda cidade. Pessoas Sem perspectiva de diversão, pessoas Sem perspectiva grande futuro fora da cidade, pessoas Sem perspectivas de simpatia, pessoas Sem perspectiva de arrumar um namorado, como eu. Também não precisa me julgar, gosto de caminhar. Além disso, já tenho meus 32 anos e, Se eu não me cuidar, vou chegar na idade de Cristo com cara de quem foi pregada na cruz. Enfim, eu estava caminhando no parque e passei na ponte que fica perto de onde o pessoal gosta de fazer alongamentos. O rio estava mais fedido do que nunca, mas a gente nunca fala disso, afinal em Curitiba gostamos de fazer de conta que a cidade é perfeita.

Continuei andando, inebriada pelo aroma de valeta, até que vi um rapaz bonito, loiro, cabelo bagunçado, minha idade, meio barrigudinho, mas não vi problema nisso. Caminhei propositalmente para perto dele, mas mostrei absoluta falta de interesse e desdém, afinal é isso que as mulheres de Curitiba gostam de fazer em meio à frieza da manhã, da tarde e da noite. Ele nem percebeu que eu existia, mas eu percebi que ele era o tipo de curitibano que Se encheu de tentar trocar um olhar com uma curitibana por causa de todos esses infortúnios de comportamento.

Mas, e é importante reconhecer que esta foi a razão para meu comportamento, eu ainda estava inebriada pelo aroma do riacho doce do parque. Então tropecei. Estava apenas a dois metros de distância dele. Claro que, como um homem gentil que descobri depois que ele era, S me ajudou a levantar, perguntou se eu estava bem e a história acabou por aí naquele dia. Culpa da cidade. Aliás, nós curitibanos adoramos colocar a culpa na cidade.

Fui para casa para terminar de escrever meu conto. Esqueci de dizer Sou escritora. Escrevo uma coluna a cada quinze dias para um jornal de grande circulação na cidade. Dizem que é um bom jornal, mas eu Sei que não passa de uma resenha da Folha e do Estadão do dia anterior. Eu também não Sou grande coisa em termos literários. Enfim, gosto do jornal. Do jornal e da cidade, mas minha coluna é praticamente desconhecida. O povo de Curitiba acha que eu fujo do assunto no meio da história. Eu culpo a cidade.
Passei o resto da semana pensando em S e no meu tombo, afinal meu joelho ainda doía. Eu pensava e Se eu o encontrar novamente e Se eu não o encontrar? Perguntas não faltavam e acabei indo ao parque naquela semana inteira. Fiquei até amiga do rapaz que vendia água, o que não é normal em Curitiba. Eu culpo a frieza da manhã.

Após uma Semana de Solidão e Silêncio. Eu estava quase desistindo, mas Sempre fui persistente. Persistente ou não, nunca me Senti tão Só. Até que, no domingo e no parque, encontrei-o, com numa música do Chico. Sentei perto do mesmo lugar em que ele fazia alongamento. Fiz de conta que lia o jornal com cara de concentrada. Ele tinha um Semblante Sóbrio e Sábio para quem faz apenas alongamento. Tamanha foi minha Surpresa quando ele veio em minha direção e perguntou: “Como está seu joelho?”

Claro que eu tinha enfaixado minha perna sem necessidade. Afinal, precisava dar uma deixa para ele perguntar alguma coisa. Aí começou minha história com S. E Se eu não tivesse enfaixado minha perna? - eu penso hoje. Teria sido bem melhor. Sou capaz de apostar que Sim: mais Simples, menos Sofrido. Eu culpo a cidade, o tempero e o aconchego. E quem não culpa?

CONTINUA...


22 de jun. de 2007

Romeo & Juliet

Epitáfio
por Mercedes Gameiro
Conto n.2


Entregamos nossos corpos, por não precisar deles para eternizar o que sentimos.
Entregamos nossas vidas para que sejamos livres.
Entregamos nossas almas para amar para sempre.

Entregamos um ao outro o que somos e o que fomos.

"Eyes, look your last!
Arms, take your last embrace!"



Carla e Jonas


˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚


Carta lacrada, encontrada na bolsa de Carla

Para
Glorinha Lacerda
Em mãos



Glorinha amada,

Eu preciso contar pra você o que aconteceu de verdade.
Sei que posso, porque você vai entender e não vai contar pra ninguém, porque sempre foi minha melhor amiga, sempre me escutou com paciência e acreditou em mim.
Tudo não passou de um acidente, Glory, juro. Mas ninguém acreditaria em mim. Eu sei disso. Tenho certeza.
Desde pequena ninguém acredita que eu faço coisas sem querer. Desde a vez que quebrei um vaso da minha avó e ela fez queixa para a minha mãe dizendo que eu era dissimulada, sonsa, que fingi que não fui eu. Glorinha, foi tão injusto! O vaso caiu e quebrou quando a Vó não estava em casa. Eu tinha ido na padaria comprar o que ela tinha pedido em um bilhete escrito antes dela sair. Quando ela chegou, eu não tinha voltado ainda e o vaso estava quebrado. Ela perguntou para a empregada quem foi, e a empregada não sabia. Ninguém sabia mesmo…Eu cheguei em casa e, antes de eu poder contar, ela já começou a brigar, dizendo que eu não podia quebrar as coisas e esconder... Você sabe bem o resto.
Foi sempre assim. Sempre. Você sempre viu. Mesmo quando alguém mais estragava alguma coisa, ela dizia: “Essa menina não pode ser tão estabanada! Pra mim ela faz de propósito!”

E essa é a lenda que reza na minha familia. Agora, como eu poderia contar o que acabou de acontecer? Eu não queria acabar com tudo dessa maneira, Glorinha, mas acho que é a saída mais bonita.
Presta atenção:
Eu e o Jonas fomos a uma festa ontem à noite. A festa foi divertida e nós bebemos um pouco. (Você sabe que ele exagera, né?) Dançamos um monte, rimos muito e ele me convidou para encompridar a noite. Viemos para esse hotel. Você precisava ver que lugar legal! Pedimos a maior suite. Glorinha!, dava pra fazer uma festa pra 200 pessoas aqui dentro. É a Disneylandia inteira só pra nós dois. Tem até máquina de fliperama!
A gente chegou, brincou de tudo o que tinha pra brincar, caímos na piscina, fizemos melhor de três no flipper, fizemos sauna, comemos tudo o que tinha no frigobar, bebemos champagne, nos divertimos demais. Depois tomamos um banho e dormimos um pouco.

Quando a gente acordou, o Jonas resolveu brincar um pouco mais pesado. Ele tinha umas balas (você sabe de que bala eu to falando). Ele tomou uma e deu uma pra mim. Ele também cheirou e tomou mais um negócio que eu não sei o que era, mas eu não. Dançamos um monte…depois transamos um monte…e depois mais, depois mais. Ele estava completamente doido, e eu chapada demais. Quando começou a baixar, vimos um filme. Depois, estávamos conversando na cama e ele parou de responder. Glorinha! Assim, do nada! Do nada, ele parou de responder. Eu chamei ele e nada! Eu sacudi ele, e nada! Eu gritei! Eu bati nele! Eu joguei água fria na cabeça dele! Glorinha!!!!!!! Eu quis chamar uma ambulância, mas não adianta. Eu fiz tudo o que eu sabia: boca a boca, massagem cardíaca. Eu girtei, gritei, gritei! Glorinha, o Jonas não se mexe! Ele não responde! Ele morreu, Glorinha! Morreu! Ele está ali na cama, sem vida, gelado!!! Eu acho que ele nem está mais ali naquele corpo. Ele foi embora, Glorinha!
Eu pensei em chamar a polícia, a gerência do hotel…mas não vou.
Eu não vou ficar aqui para ser acusada de fazer tudo errado. Eu não vou sentar e esperar que me apontem o dedo:
" Olha a namorada do drogado do motel! Louca! Promíscula! Drogada!"
Eu não vou esperar que alguém diga que foi tudo culpa minha! Vão querer me internar numa clínica. Eu não sou viciada! Mas quem vai acreditar, Glorinha? Só você. Eu não vou esperar que a minha avó comente com as amigas da minha mãe que eu sempre fui um problema. “Ah…Ela era uma sonsa!”
Então amiga, só você sabe a verdade. Foi um acidente.
Tão horrível... A única coisa boa é que o Jonas estava muito feliz. A noite foi linda. Tudo delicioso...

Depois de pensar por horas, vendo o Jonas, lindo, deitado ali, tão tranquilo, eu decidi que vou junto com ele. Eu sei que ele vai me esperar. Pedi papel e envelope na recepção e resolvi escrever, eu cheirei tudo o que ele tinha na mochila, amiga, e tomei as outras balas. Cinco. Vou ficar por aqui até começar a me sentir estranha e vou deitar ao lado de dele, esperar que ele me pegue pela mão.

Desculpa por isso, minha amiga. Eu te amo demais.
Não conta pra ninguém esse segredo, ta? Deixa eles pensarem o que eu vou fazer eles pensarem.
Não fica triste comigo. Nem fica triste por mim. Eu vou ficar bem.

Um beijo enorme.
Se cuida bem cuidadinho…
Da sua eterna amiga,

Carla

P.S. Fala baixinho pra minha avó que "desta vez, sim, foi de propósito."

˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚˚

Esta carta foi usada como evidência na defesa de Jonas Ferreira de Andrade -
acusado de tráfico de drogas, aliciação de menores, cárcere privado e homicídio doloso da menor Carla Schimidt. O acusado foi inocentado das acusações mais graves, mas cumpre pena de 3 anos por tráfico de drogas.

20 de jun. de 2007

Cobra


Epitaph
By Frank Viñas




Now, I feel as nothing matters. The constant strolls on the main deck are displeasing to my crew. They know. It’s nerve racking to them. They are aware of my state. I hear it louder and see it clearer than ever, magnified a thousand times over. I see, each officer staring at each other, from every angle. After living for years and years together and navigating in this gigantic-sized city, slaloming and skidding deadly events in the darkest confines of my dreams, they know me better than I know myself.

I hate being predictable but love the moments of anticipation that my officers attended my peccadilloes, a crude and harsh task my crew despised. In my quarters, resting on my hovering bed, I stare the infinite darkest skies and think what would of happen if I had been less selfish and given up my life in the military. Maybe it would of turned out differently. Maybe I would have been loved the way I wanted. “ …no that’s selfish; I can’t think like that.” Everybody looks at me as if I’m not there. I still feel that sense of replacement. I whish I was invisible then.

Checking the main engine room without my favorite red suit; scaring them with tickles, pinches and thumps; making facial caricature gestures to the officers; dancing in their faces, releasing anger—I hate them all now. As I float through the labyrinth-like halls of the ship searching for reasons I hear wry laughs from a small corner. I can hear the engineers mocking me, turning their responsibility away and playing a game of chance in time of war. “I want to break this thin layer of universe and grab them by their elastic suits and choke them with it! “Telling my faults as a Captain, ha.” Prattling what they would of done if they were in my place. God! It feels so good no to be alive. It most be “a real heaven” like they used to say a thousand years ago. But knowing the truth now makes it unbearable for me.

I, homeless, timeless, like a still image in the universe, is hell. The only insignificant and smallest trivial Artemian in my non-existent life was the only thing I should of cherished. My Goddamn pride and ambition is the final result of my destiny. Always like an idiot chasing my on tale, “Cobra the conquering hero.” I must look like an idiot talking to myself. I keep reviewing that time in my quarters thinking what I know now and the pain of myself watching it over and over and it pleases me more than the actual reality. A thousand years anchored in this contract, and I’m ready to be reborn again.

19 de jun. de 2007

Um pequeno Adeus



Conto No. 2
Por Flavia Melissa
Desafio Caixa Preta IV


Eu sempre soube que este dia chegaria. Eu sempre soube, desde a primeira vez em que as crianças da escola me ridicularizaram por eu ser diferente, desde que as meninas rejeitavam meus convites para dançar porque eu era diferente. Algumas me tratavam bem, é verdade, mas eu sempre soube que era por pura piedade. Por pura misericórdia. E, porque não dizer?, por puro medo.

Nunca vou me esquecer, na segunda série, quando a diretora entrou na sala de aula falando sobre diferenças. Nunca vou me esquecer de como me senti envergonhado, de como quis me enfiar debaixo da mesa, de como eu quis sumir. De como enrubesci quando ouvi as crianças cochichando, entre si: “quer dizer então que ele não vai crescer?”. De como me surpreendi, eu mesmo, com aquilo: “quer dizer então que eu não vou crescer?”.

Sempre soube que eu era diferente, oras bolas, sou inteligente o suficiente para perceber que algo de errado havia comigo. Eu tinha essas mãozinhas pequenas, esses pézinhos pequenos e o corpo todo pequeno. A única coisa que não era pequena e que tinha o tamanho normal era minha cabeça. Exatamente do tamanho da cabeça do meu irmão, tanto é que usávamos os mesmos bonés na praia. Eu sempre soube que nunca seria igual a nenhuma outra criança. A nenhum outro adolescente. A nenhum outro adulto.

E é por isso que me juntei ao Circo. Lá, eu me transformei em um pequeno-grande homem, o Menor Homem do Mundo! Lá eu pude conhecer a fama, e o que ela poderia me proporcionar. A cada espetáculo, quando me anunciavam e eu subia na ribalta usando minha calça risca-de-giz e suspensórios e gravata borboleta combinando com tudo, eu me sentia importante. Lá conheci meus melhores amigos. Lá todos eram diferentes como eu e eu quase consegui me sentir normal. Lá todos tínhamos nossas histórias de sofrimento, todos tínhamos nosso histórico de sermos diferentes: a mulher barbada e seus traumas da adolescência, as irmãs siamesas, uma lésbica e a outra não. O homem de dois metros e oitenta de altura que me ensinou que, às vezes, ser pequeno era – literalmente – o menor dos problemas.

Lá eu fui feliz, conheci o mundo e amei mulheres, porque eu era famoso e elas queriam conhecer a sensação de me experimentar. Descobri dotes que eu não sabia que possuía, senti coisas que eu não imaginava que existissem. Lá eu me senti único e especial como nunca havia me sentido, lá eu fui feliz de verdade.

Até que Ele apareceu. Ele, um centímetro menor do que eu. Ele, que tinha até mesmo a cabeça menor do que a minha. Ele, que ganhou o meu lugar, passou a usar as calças risca-de-giz com suspensórios e gravata borboleta combinando ainda menores. Ele, que passou a subir na ribalta junto comigo e me fez perder a graça, qual é a importância do Menor Homem do Mundo quando deixa de ser o menor?

Ele. Ele, que acabo de estrangular dormindo, sem que ninguém percebesse. Ele, meu odiado e ao mesmo tempo amado, pois foi a primeira pessoa que me permitiu experimentar a sensação de olhar alguém de cima, está morto aqui ao meu lado, enquanto escrevo esta carta. Enquanto apertava seu pescoço, imaginei que voltar a ser o Menor Homem do Mundo fosse me satisfazer, mas ledo engano. Eu sempre saberei que sou o segundo menor.

Nada mais me resta, não tenho nenhum bem a ser herdado, a não ser meu banquinho no qual subi tantas vezes para fazer graça em apresentações, no qual devo subir, pela última vez, em breve. A corda já está a postos, esperando pelo meu pescoço. Que meu banquinho fique para o dono do circo, com meus votos de que rapidamente encontre um substituto, sem trocadilhos, à minha altura.

Que escrevam em meu epitáfio: “Aqui jaz o homem para quem um único centímetro foi o suficiente”. Que meu último feito seja o de ter proporcionado a inesquecível experiência do enterro de um anão, para alegrar e divertir aqueles que vivem brincando que, assim como cabeça de bacalhau, nunca haviam visto. E, por favor, me perdoem pela pequenez de meus atos. Quem sabe, morto, eu consiga ser maior do que fui em vida.

Anão Jacinto A. Glória – para sempre, o Segundo Menor.

15 de jun. de 2007

Epitáfio Piegas


por Felipe Belão Iubel
conto n.2



Onde quer que esteja

Durante meus dois últimos dias nessa sua terra que é de ninguém, pensei em como dizer toda a verdade para você. Imaginei que uma carta diria tudo. Porém, agora, onde quer que eu esteja, sei que não é assim que os sentimentos funcionam.
Naquele dia em que você terminou tantos anos em apenas uma ligação, eu chorei. Chorei e dei repetidos socos na parede até minha mão ficar roxa e do tamanho da minha insensatez. Chorei mais e pensei: “Hoje ela partiu meu coração.”
Bobagem. O tempo cura. O relógio não parou. Tac Tic, ele me dizia. Tac. Tic. E outra mulher chegou. Fui feliz. Muito mais do que fui feliz ao seu lado. Hoje, onde quer que eu esteja, sei bem disso. Eu passei a escutar mais. Passei a ter mais paciência. Aprendi que não precisa durar para sempre. E acabou.
Tac. Tic. Em seus ponteiros o tempo me trouxe uma paixão que era só minha. Paixão de adulto, gente grande. Recebi mais carinho do que em todos os anos ao seu lado. Eu sabia disso na hora. E, hoje, onde quer que eu esteja, sei que não é tão simples assim. Afinal, carinho não é quantitativo, diria um poeta chegado na pesquisa científica.
Tac Tic, o tempo me dizia. E eu respondia: Mas por que ainda penso nela com tanto amor? Loucura, alguns me diziam. Bobagem, outros. Obsessão, os que restavam. Porém, o tempo sempre me disse: Amor. Só que hoje, onde quer que eu esteja, sei que era daquele tipo de amor que não é pra ser. Foi feito para sentir.
E o mais engraçado de tudo é que só depois que pensei em me despedir dessa sua terra que é de ninguém é que percebi: para aonde quer que eu vá, continuarei amando. Para aonde quer que eu vá, não restará mais nada da loucura, bobagem ou obsessão. Amor, só amor. E agora, enquanto digo adeus, vejo que você nunca partiu meu coração. Eu mesmo acabei de destruí-lo.



Daquele que não recebeu seu amor e implora pela negação do seu ódio.
Daquele que aprendeu a sentir o tudo e o nada com você.
Daquele que, onde quer que esteja, ainda ama e pó.

14 de jun. de 2007

PostSecret - Epitáfio

Um epitáfio ao contrário.
PostSecret - 10/06/2007

*achei que cabia bem aqui.

12 de jun. de 2007

Ao infame portador



Conto nº2
por Alice Salles

Desafio Caixa Preta IV





Ao infame portador


São perdidas as causas pelas quais lutei. São perdidas todas e mais algumas que não me aceitam, que não me abraçam e não irei tentar mais. Peço desculpa por esse orgulhoso egoísmo que vive em mim e que morrerá comigo, ninguém vai ter que agüentar mais disso. Já fui tão amado, já fui tão querido, mas nunca da forma que deveria ter sido. Ser amor e tê-lo sempre foi meu único e mais precioso objetivo, mas nunca foi alcançado. Tenho tanta pena de todos. Tenho tanta pena por todos aqueles que não vêem o quanto o amor ronda e o quanto o amor os quer. Tenho tanta pena das gentes que não consigo nem olhar para as minhas próprias mãos sobre essa mesa de madeira antiga que repousa nesse quarto e que foi meu repouso já faz alguns anos. Sinto uma profunda piedade por mim e não quero saber de choros, de gente esperneando ou de reuniõezinha esbaforidas, já tenho vivido muito disso. Me dêem paz. Deixo a quem me ama de verdade – e a decisão cabe a todos aqueles que viveram parte da minha vida comigo e que já tiveram uma foto tirada ao meu lado – tudo o que tenho. Não quero saber de problemas de posse ou nada parecido quando encontrarem o que restou do meu corpo nesse piso gelado. Não quero saber de nada, pois não saberei. Vocês não vêem? Eu morro por pena demais em mim. Por não conseguir me ver além da dor do outro. Só vejo dor, por todos os poros que ainda respiram, por todos os centímetros de pele que envolve meus músculos, por todos os momentos de minha vida essa pena se alojou em mim. É por isso que assino esse último bilhete que talvez jamais será lido a todos que merecem ouvir... Morro pelo amor que não consegui viver.


Peço aos meus amigos, calma.
Peço aos meus irmãos, ordem.
Peço ao meu amor, olhos...


Leires Carroll


P.S.: E coloquem em minha lápide uma única flor. Não quero nada apodrecendo sob a terra além de mim mesmo.

8 de jun. de 2007

Epitáfio

Conto n.2
por Felipe Belão Iubel





* foto Alice "Wonderland Girl" Sales


Terça-feira, Doce Chuva

Acordei deitado num gramado coberto com folhas amarelas. Amarelo daqueles de outono e folhas daquelas com cinco pontas. Acordei assustado, pois parecia que eu havia caído de um abismo. Penhasco. Desfiladeiro. Barranco. As palavras chegavam fáceis aos meus pensamentos, com vozes de outras pessoas. E, de repente, elas estavam todas ao meu redor. Falando coisas boas. Lembranças de meus últimos cinco dias.

Nos meus últimos dias, elas diziam, eu fui feliz. Feliz a ponto de sentir medo da morte pela primeira vez. “Para Ela, esse cheiro é como o de bolo de fubá quentinho com manteiga derretendo.” Café pingado. Queijo quente. Chocolate derretido. As palavras chegavam fáceis aos meus pensamentos. As vozes me faziam recordar do café de sexta-feira na casa do meu avô. O piso de madeira rangendo sob meus pés. Meu avô arrastando o chinelo, cada dia mais velho. “Mas ele não tem medo da morte.” Não tinha e continua caminhando, as vozes bondosas me diziam.

Na estrada para aquela cidade que guardava o epílogo da minha história, jamais imaginei que um dia escreveria meu epitáfio. Dirigia sem pressa. Com cuidado. Queria chegar com jeito de quem aproveitou a viagem. Parei num daqueles cafés coloniais. Tomei mais uma xícara de café pingado. Experimentei um pedaço do queijo provolone. Comi pão italiano com requeijão quentinho. Segui na estrada. Cinco horas antes do café e mais cinco horas logo depois. Direto. Direito. Sem pressa. Sempre.

A cidade era pequena, as vozes me contavam. Interior. Muito mato. Pouca gente. Fui logo procurar a jornalista que havia encontrado o pedaço de papel. O segundo dia passou rápido ao lado dela. Cabelos castanhos escuros. Olhar claro distante e com aquele contorno cinza que faz o azul parecer mais azul. Sua blusa branca colava no corpo e mostrava um pedacinho do abdômen. Sua calça jeans era simples, barata. Ela tinha perfume de chuva. Doce e úmido. Cada minuto ao seu lado, fazia aumentar meu medo de morrer. As vozes repetiam. Medo. Pavor. Terror. Palavras diferentes chegavam fáceis ao meu pensamento.

No terceiro dia, beijei-a. Beijo logo após a primeira caldereta de chopp. O gosto da cevada do chopp claro que ela pediu se misturava com a do meu chopp escuro. A cidade ficou ainda menor. Minhas mãos passearam pelo seu rosto. Seus cabelos se misturaram em meus dedos. Nossos corpos ficaram próximos e úmidos, colados e apaixonados. Ela me disse que ainda não poderia mostrar o pedaço de papel. As vozes também me contaram que ela gostava do meu jeito de escrever. Um lágrima dela, com cheiro de bolo de fubá e manteiga, caiu na toalha rosa do bar e fomos para o hotel.

Amamos. Amamos a vida e um ao outro. Devagar e com carinho. Com paixão e com força. Sentimos os corpos passeando e descobrindo aquilo que se propôs na sua criação. As vozes me faziam lembrar, como se o pensamento fosse só meu. Elas não invejavam, mas desejavam para elas também todo aquele desejo e paixão. O lençol branco sucumbiu aos pés da cama. Amamos no chão. Beijamos e adormecemos, mantendo o contato de meus lábios grossos e de seu ombro delicado.

Na manhã seguinte, acordamos entre a névoa do meu desejo e o seu cheiro de chuva doce. Ela me mostrou o pedaço de papel. Eu li e chorei. Cada uma das lágrimas, contavam as vozes, representavam uma das vogais usadas naquele pedaço de papel. Minha letra, com certeza. Ela chorou, quando confirmei. Abraçamos um ao outro e nos amamos com saudade. Meu braço percorreu suas curvas como jamais haviam feito. Discutimos sobre rasgar o pedaço de papel enquanto caminhávamos em frente às casas de arquiteturas italiana e alemã antigas. Sonhamos um futuro e as vozes me disseram que mandamos para longe um pouquinho do nosso presente. Meu presente era ela e o pedaço de papel tinha esse texto.

As vozes de outras pessoas me contaram logo depois. Contaram que eu morri no quinto dia, pois dirigi depressa demais. Com pressa de sobra. Com pressa de futuro. Com pressa e com lágrimas. Lágrimas que mancharam o pedaço de papel e embaçaram minha vista. À curva, não resisti. Abismo. Penhasco. Desfiladeiro. Barranco. Meu corpo se perdeu para sempre, logo depois de encontrá-la.

No final do pedaço de papel, meu testamento jazia. Dizia que meu legado era só dela. Cada palavra escrita. Cada vogal com gosto de lágrima. Cada passo com gosto de bolo de fubá e manteiga. Cada lembrança boa de café com leite e chocolate derretido. Cada pedaço meu - de carne e de papel, de sonho e de lembrança – pertencia àquela mulher com perfume de chuva doce.

Doce chuva. E, deitado entre todas aquelas folhas amarelas de outono, as palavras chegavam fáceis aos meus pensamentos. E as vozes ficaram roucas e sumiram. E o cheiro de chuva doce virou memória. E o pedaço de papel caiu do céu em suas mãos outra vez, pela primeira vez.

5 de jun. de 2007

EPITÁFIO

Conto número 2
por
gravata




(clique na imagem para ampliá-la)

EPITÁFIO


Por Mercedes Gameiro
Conto nº2




Meus queridos,

Juro que, se eu pudesse, entraria numa máquina de evaporar.
Se tal máquina existisse, ela evaporaria pessoas, dores, sofrimentos e lembranças. Assim, eu poderia simplesmente desaparecer da face da Terra sem que ninguém sofresse por isso.
Eu queria simplesmente não faltar - não ser nem mesmo como aquele vaso que fica no canto da sala desde “pra sempre”, e a gente já nem repara a existência. Porque se um dia alguém tirar o vaso do canto, ninguém vai ter certeza do que mudou, mas todos notarão que falta algo. Nem isso... Nem um vaso eu queria ser.

Queria evaporar sem culpa e sem deixar que alguém se achasse culpado, nem por um segundo. Simplesmente não há culpados. Eu sempre odiei as cartas que os suicidas deixam, porque elas são sempre dedos pesados apontando para alguém que, muitas vezes, não sabe que errou. E justamente por isso estou escrevendo: só para dizer que vocês fizeram tudo certo. Tudo certo!

Eu lutei para sobreviver dentro de mim, mas fracassei. A vida toda olhei à minha volta e percebi o quão plena e feliz a minha vida deveria ser. Via estas pessoas vivendo praticamente para mim, em função do meu bem estar, sempre com sorrisos prontos, sempre dispostos a tudo. Eu deveria ser feliz, mas não consigo. Eu juro que lutei muito. Acho ingrato, acho injusto, me torturo, me culpo, me condeno por não conseguir sentir por mim mesmo uma mínima parte do que vocês sentem.

Eu sinto o amor de vocês. Nunca imaginem que não. Eu o sinto em cada toque e cada palavra. E sofro por não saber retribuir! Eu quase explodo por querer dar de volta alguma coisa que pudesse fazer vocês terem alguma recompensa, mas não sou capaz.
Eu e todas estas vozes que me torturam somos pessoas escuras, escusas, de alma pesada, de desejos horríveis. Quando uma delas fala mais alto, eu travo uma batalha imensa para tentar contê-la, por medo que algo de ruim aconteça a um de vocês. Elas são sombrias. Elas são cruéis e zombam de mim. Sinto-me como uma criança presa dentro do armário enquanto os amigos quebram seus brinquedos. Meu sofrimento é maior do que a própria vida e só há uma maneira de acabar com ele.

Por isso preciso pedir perdão. Preciso pedir que me esqueçam. Preciso que tenham certeza de que eu sei que vocês fizeram por mim tudo o que podiam, mas simplesmente não há mais esperanças para mim. Não há como esperar a cura, a redenção, ou um olhar divino em minha direção. Não seria justo fazê-los sofrer mais tempo. Preciso ir.

Deixo minhas economias - que são poucas - para Mamãe. Minha coleção de futebol de botão e meu De Lorean Match Box para o Pancho - rotweiler da Dona Mércia. Sei que é difícil que vocês entendam, mas em seus passeios matinais, ele fala comigo. Talvez ele seja o único a viver na mesma prisão, dentro de um corpo que não condiz com seus desejos. Tentem salvá-lo. É uma boa alma.

Não gastem dinheiro comigo. Não façam um enterro luxuoso. Não cremem meu corpo. Doem qualquer parte minha que seja necessária para alguém - menos meu coração apodrecido e meu cérebro doente. Se mesmo assim, ainda sobrar algo a ser enterrado, escrevam na minha lápide:
“Desapareceu para fugir do inferno”.

Desfaçam-me. Desmontem-me. Façam de forma a nunca mais minhas partes serem vistas juntas. Morrer é pouco para alguém como eu. Preciso ser exterminado. Me ajudem. Só assim eu terei paz.

Com todo o amor que eu não soube mostrar,

Caim Abel Angelo

30 de mai. de 2007

Eu e eu

Conto n˚1
Por Fastolf Brambel
Desafio Caixa Preta III



Branco... tudo branco. Muita luz. Cheiro bom. Tudo branco... Tudo estranho. Branco.

Não via nada, nada além de uma forte luz que me cegava. Sabe quando ligam a luz e você está dormindo? Então... só que branco. Tudo branco.

Rápidamente surgiu um vulto que, agora devagar, vinha em minha direção.

- Rafa? - ele disse.

Quanto mais o vulto se apróximava menos luz entrava. Quanto menos luz entrava mais nítidas as coisas ficavam.
Consgui ver um pouco. Aos poucos um rosto ia se formando enquanto repetia ininterruptamente o meu nome. Um rapaz bonito, preocupado e sorridente ao mesmo tempo.

- Rafa? Rafa, tá me ouvindo?

Olhei no fundo dos seus olhos buscando qualquer sinal de identificação. Ele sorriu, me olhou profundamente e sorriu. Recuei assustado assim que percebi quem é que estava ali. Era eu! Estava ali, eu! Era eu falando comigo mesmo. Um eu imóvel e um eu em pé. Um eu deitado e um eu me olhando. Se olhando, enfim...

Sem muito entender arrisquei um simples palpite:

- Você é um anjo?

Ele riu, e sorriu ainda mais.

- A mãe sempre diz que sim...
- Deus é mulher? - Perguntei entendendo menos ainda
- Não sei, Rafa, não sei.

Ele chorou. Deixou duas lágrimas escorreram. Primeiro veio a do olho esquerdo enquanto ele lentamente tremilicava a boca e o nariz. Depois veio a do olho direito, seguida de outro sorriso e um suspiro profundo.
Tudo doia. Começava a sentir cada membro do meu corpo amortecido.

- Estamos no céu, anjo-eu? - Perguntei enquanto ainda não conseguia ver tudo ao meu redor.
- Você não morreu, Rafa, e eu não sou um anjo. Estamos no hospital.

Me esforcei ao máximo para ver meu próprio corpo deitado, um lençol azul e alguns objetos decorando o que eu entendi ser uma parede.
Tudo agora era mais claro. Quero dizer, menos claro, mais nítido.
Um quarto branco, a cama, uma TV de plasma, cheiro bom, flores, muitas flores, dor no corpo, quadros e eu. Não, eu não... esse rapáz jovem e bonito, forte e sorridente, que não é um anjo mas também não sou eu... Então quem é? Pensei.

- Você tá bem? Deixa só eu apertar esse botãozinho aqui para chamar a enfermeira. Sente dor?

Quanto menos entendia, menos respondia.

- Mas... você?... eu?... por quê?...

- Rafa, sou eu, Lucas...

Meudeusdocéu.

- Lucas?
- Você lembra de mim?

Essa era uma questão difícil. No momento mal lembrava de mim. Lucas, para mim, era um nome e um sentimento. Lucas não era uma lembraça. Talvez fosse um futuro.

- O que aconteceu? - perguntei.
- Você sofreu um acidente, ficou alguns anos em coma. O médico falou que teriamos problemas com a sua memória. Que não lembraria de algumas coisas importantes de sua vida. Estou aqui para te ajudar.
- Eu não tô bem?
- Ele sempre disse que seu estado era bom, que não corria riscos e que acordaria quando seu corpo estivesse preparado.
- Alguns anos? Preparado? Eu não me sinto preparado! Cadê minha mãe? Meu Pai?

Nada era mais dolorido e mais confuso. Era como se eu estivesse assistindo 19 televisões ligadas de uma vez. Imagens, sons, esboços de memórias, raiva, dor e amor. Tudo ao mesmo tempo. Tudo em um segundo.
Eu era uma criança. Um adolescente irresponsável. Birrento e carinhoso. Lucas era choros e sorrisos embrulhados com pequenos pneuzinhos em um fralda fedida.

- Céus, você cresceu. Quantos anos você tem? Quantos anos eu tenho? Eu fiquei aqui todo esse tempo?
- Calma, calma...

Enquanto os enfermeiros chegavam cheios de coisas e perguntas pensei que era um homem vazio. Um homem sem presente e um homem sem passado.
Não pensei, com essa cabeça de menino, em tudo o que deixei de viver. Pensei, sim, em tudo o que vivi e não lembrava. Pensei no pouco que lembrava. Eu não era eu. Eu não era ninguém.

Pensei errado.

Fora do hospital Lucas me mostrou o mundo. Mostrou o que sou e o que eu fui. Mostrou quem ele foi para eu perceber quem ele é. Para eu perceber quem eu sou.
Realmente, não sou mais o mesmo. Não sou apenas eu. Agora eu sou dois.

29 de mai. de 2007

Boneco Quebrado


Por Marilia Lopes
Conto nº1 - convidada especial
Desafio Caixa Preta III




O telefone toca, tento correr pra atender, mas minhas pernas são muito pequenas. Ahhh que saco, eu adoro atender telefone!!!

Ihhh...acho que não é coisa boa, estão gritando e chorando pela casa. Histéricos!!
Que correria é essa? Minha mãe parece doida, meu pai anda de um lado pro outro sem saber o que fazer. ALGUÉM PODE ME DIZER O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

Meu irmão não voltou pra casa...mamãe vai ficar furiosa!!!

Saíram e me deixaram na casa de minha avó. Obaaa...adoro ficar com ela, faz tudo que eu quero!!
Os dias depois desse foram estranhos, um silêncio pairava no ar. E nada do meu irmão. A bronca vai ser feia. Como sei disso? Porque meus pais andam cochichando pela casa e nunca consigo escutar o que falam. Mas tenho certeza que é dele.

Meus pais não paravam em casa.
Hoje fui ao hospital com minha mãe e para minha surpresa, quem estava lá? Meu irmão!!!
Credoooo...ele parece um boneco quebrado!!Belisquei a mão dele mas ele nem ligou...to gostando disso!!!

Anos visitando meu irmão e ele ainda está lá. Com o tempo entendi o porque.

Eu cresci e ele envelheceu!!

Na verdade, olho pra ele agora e vejo um estranho.

27 de mai. de 2007

O semi-morto, o caderno e o bebê da capa

Conto no. 1
Por Flavia Melissa
Desafio Caixa Preta III



Eu fui a primeira coisa que ele viu quando abriu os olhos. Passados tantos anos, acho que ele esperava coisa melhor quando abriu os olhos e as pupilas me encararam pela primeira vez. Mas eu estava ali, ali do lado, dando sopa, de bandeja. Então ele abriu os olhos e me viu. E, é, foi isso aí.

Eu já tinha ouvido muitos papos a respeito daquele cara deitado ali, parecendo morto. Muitas vezes eu tinha me questionado se ele estava, mesmo, morto, mas o “bip-bip” da máquina ao meu lado não me permitiram duvidar de que ali havia vida ainda. De qualquer forma, prá mim, ele havia ganhado o apelido de semi-morto.

Eu tinha tido a oportunidade de acompanhar, por todos aqueles anos, o desenrolar da história daquele sujeito ali deitado. Ele recebia visitas sempre, vinham a mãe, o pai, os tios e primos. Uma vez veio até mesmo a velha avó, completamente gagá. Chegou, sentou-se ao meu lado e simplesmente me pegou no colo e começou a conversar comigo, me elogiando. E eu pensei, diacho, que é que essa velha fedendo a naftalina tá fazendo aqui comigo, passando a mão na minha bunda? Mas, de qualquer forma, a família do quase-morto era boa gente.

De todos, o que eu mais gostava era o irmão mais novo. Era a visita mais frequente. Dia sim, dia não, vinha ele, e eu já era capaz de reconhecer que era ele que vinha pelo barulho dos passos no corredor. Na verdade não era o barulho, mas a vibração dos passos, e quando ele entrava no quarto e fechava a porta a presença dele era assim tão forte que eu chegava a tremer inteiro, às vezes quase caia no chão. Ele entrava, olhava o irmão deitado ali, semi-quase-morto, se sentava ao meu lado e começava a falar, e a falar, e a falar.

Ele tinha esse caderno, que mantinha desde que havia começado a escrever, e que, pelo que eu havia entendido, tinha sido uma recomendação da analista que cuidava dele. Esses analistas são pessoas engraçadas. Um menino tem um irmão mais velho quase-semi-muito-quase-morto, sofre horrores por causa disso e tudo o que mandam o menino fazer é um caderno.

Mas não era qualquer caderno. Era um caderno grosso, capa bem gasta já, recheada de coisas coladas e escritas e remendadas até, porque era um caderno bem velho. A capa era grossa e tinha figuras, e as figuras mostravam um pai, uma mãe, o semi-muito-quase-morto e um bebê de colo. E não precisa ser muito inteligente ou esperto prá sacar que aquele menino dono do caderno era o bebê da capa.

O irmão chegava com o caderno, se sentava ali na poltrona, às vezes na cama com o irmão semi-morto-mais-morto-do-que-vivo e lia coisas do caderno. Contava coisas da escola. De casa. Do cachorro que estava bem velho e que tinham sido convencidos a sacrificar. De pesadelos que ele tinha. Da primeira namorada. De ter se formado na escola. Da morte do melhor amigo do prédio.

E ele falava também de outras coisas no caderno, falava de guerras, de filmes, de video-games, de mulheres famosas, de doenças novas, de políticos corruptos e de aviões que haviam caído. E ele falava, e falava, e falava e não parava nunca de falar e eu adorava ouvir aquelas histórias porque, com o tempo, também fui conhecendo a história daquele menino, irmão mais novo, que havia começado a fazer análise porque não aguentava mais ter que cumprir expectativas que haviam sido colocadas sobre ele desde que o irmão mais velho tinha se transformado naquele semi-quase-morto-mas-bem-morto-mesmo.

Com o tempo, fui me transformando em parte da família. Eu gostava daqueles momentos, algumas vezes chegava a me emocionar de ouvir os relatos no caderno, chegava a ter vontade de ser aquele semi-quase-super-morto só prá ter alguém que me visitasse e me contasse histórias dum caderno velho e gasto. Quando dormia, de noite, chegava a sonhar com o dia em que o semi-quase-mais-que-morto abrisse os olhos e visse o irmão mais novo e o caderno grosso e gasto de capa dura.

Mas um dia, o semi-morto abriu os olhos. E eu fui a primeira coisa que ele viu. Com o desespero, ou susto, ou vontade de se levantar da cama ele bateu em mim com toda força e eu caí no chão, me espatifando em milhares de cacos. A flor de plástico, que por anos a fio havia me acompanhado, também caiu no chão, rolando para debaixo da poltrona. E eu, ali, em pedaços, fui varrido rapidamente com uma vassoura dura e áspera.

E daqui, desta lixeira onde me encontro, só posso imaginar a cena dos dois irmãos, sentados lado a lado na cama, lendo juntos todas as memórias que me fizeram companhia ao longo de tantos anos.

25 de mai. de 2007

Eu ouvi direito?

Conto nº 01
por Alice Salles
Desafio Caixa Preta III



“Eu ouvi direito?”

O relógio no meu celular marcava quinze para as quatro horas da tarde. Ele tinha pânico que esse momento chegasse, era quase um princípio para o caos em seu sistema. Sistema... Essa palavra não era usada há muito tempo naquela casa. Não havia sistema pra nada, nem para esquecer e nem para lembrar daquele dia que o nosso irmão parou no tempo pra observar tudo daquele prisma ilusório que ele sempre estimou tanto. Havia uma neura no ar, um certo peso e um arco-íris ao mesmo tempo, que segurava os ânimos do nosso irmão caçula. Ele tinha dois anos quando tudo aconteceu.

“Você ouviu direito, amor.”

Acordar não era o verbo.

“Ele não sabe de nada, ele parou no tempo!”

“O último beijo dele foi o beijo que eu lasquei no seu rosto risonho na minha formatura!”

“Não me lembro, anjo...”

“Você era só olhos, pequeno...”

Sempre foi assim em casa. Nomes pra tudo, nomes pro amor da gente.

Nosso irmão do meio era alguém esquecido na cama, não no peito. Nós não sabíamos o que fazer, mas o fizemos. Nos levantamos da mureta da frente de casa e entramos, muitas pessoas estavam presentes naquele dia. Era uma tarde fria como frio era o quarto dele.

Meu pequeno liderou o caminho, ele tem cabelos castanhos bem claros, lisos e tem as costas largas. É um moço tão lindo que teria me apaixonado por ele se não fosse sua irmã-mãe-amiga...

Nosso irmão que viveu tanto tempo longe estava lá deitado e seus olhos estavam abertos, ai como era bom ver seus olhos verdes cintilantes! O verde observava o movimento dos aparelhos, dos sinais dos bips, da cortina com o vento frio que soprava. As cortinas eram azuis. Ele estava sozinho e eu passei na frente do nosso pequeno.

Seus olhos se apertaram e olharam para mim.

Ele tinha a barba feita porque tinha uma enfermeira que cuidava disso. Seu cabelo também estava bem cortado, castanho escuro, um pouco crespo e a pele com aquele tom que já havia sido moreno de matar de inveja e agora era pálido e tinha o rosto fino de tão magro. Resultado de tantos anos vivendo por aparelhos. Todo o arrependimento por mantê-lo ali havia sumido. Meus olhos já estavam esbanjando lágrimas pra todos os lados, meu pequeno veio do outro lado da cama e quieto o observou.

“Você se lembra dele? Era pequenino...”

“Você está diferente, flor...”

“Estamos mais velhos...”

“Estamos?”

Nosso pequeno suspirou, soltou uma lágrima seca de doer a garganta.

“Vocês estão... irmão.”

Será que ele ainda tinha aquele sorriso gostoso? O dentinho da frente ainda lascado por causa de uma queda quando tinha dez anos, os lábios que se abriam por completo, mostrando os molares, mostrando sua felicidade por estar pelo menos vivo. Seus olhos verdes...

“Então não foi sonho!”

Ele estava feliz e eu não parava de sorrir. Meu corpo sorria e queria dançar ao lado dele, com ele e com nosso bebê naquele quarto que não era mais frio. Nosso pequeno também tinha se contagiado com tudo aquilo...

“Sonho!”

“Sonho?”

“Não foi, minha flor linda! Me tira daqui porque eu não sonhei!”

Ele tentava se levantar da cama e eu o abraçava. Era um encontro de corpos daquelas almas que por ventura se esbarraram em seu sonho, na sua cama, nos seus olhos verdes...

“Você também não era sonho...”

Nosso pequeno virou nosso grande amor e tudo ali era festa. Ele era alguém novamente, com lembranças inventadas e com uma vida inteira pra se conhecer, era um adolescente adulto o suficiente para ser responsável por todos nós. Aqueles minutos viraram troféu e mais uma vez nosso pequeno salvou o dia...

Foi pra rua buscar flores, foi pro supermercado trazer todas as marcas de chocolate novas, de todos os tipos, com todos os recheios e de todos os formatos pro irmão conhecer. Foi à locadora e pegou todos os filmes importantes desses últimos catorze anos... Trouxe refrigerante, pipoca e beijinho, que ele sabia que eu amava.

Ao se olhar no espelho, nosso irmão recentemente renascido de seu longo sono viu nos seus olhos o dia do acidente e agradeceu por uma chance depois desse longo tempo, depois dessas tentativas frustradas de seus pais falecidos, de sua irmã flor e de seu irmão sereno. Agradeceu tanto que chorou durante horas e entre soluços, abraços e chocolate me dando de volta a única felicidade ainda restante em minha vida... Aquela pela que se vale mantê-la.

24 de mai. de 2007

Enquanto os anjos dormem

Conto nº 01


por Felipe Belão Iubel



(com o objetivo de declarar meu amor e desejo de reconciliação com meus amigos e irmãos das letras e dos dedos quentes nos teclados do Brasil)

Acordei confuso. Senti que meu irmão me segurava pela mão, mesmo morando sozinho. Pude ouvir sua voz ao longe e tive saudades. Saudades de um tempo que talvez tenha passado em um mundo que não se abre para memória ou palavra. Um mundo que era só meu e que insistia em permanecer assim. Gelo e saudade. A atmosfera fazia com que o ar saísse de meus suspiros abandonassem meu corpo em chamas. Era como se eu não respirasse e não abrisse os olhos há muito tempo ou como se jamais os tivesse usado. Meu corpo cansado me fazia sentir que eu não me encaixava e que, àquele ou a qualquer outro universo, eu não pertencia.

Engraçado pensar que tudo ao meu redor, que pouco a pouco parecia cristalino e visível aos meus olhos, dissesse tanto do que eu era. As paredes azuis me faziam lembrar da cor e um movimento lento do meu braço fez descer a coberta, deixando minha pele entrar em contato com a época do ano que eu me lembrava de gostar tanto. Não era mais o frio de minhas paixões silenciosas, nem o abandono do meu sono profundo. E o toque do meu irmão se materializou ao meu lado.

Minha primeira lágrima fez arder todo o resto do olho, trazendo consigo mais algumas delas. Ele suspirava e não me enxergava de olhos abertos. Mesmo assim seu carinho se manifestava em devoção. Minha voz não saía e não pude chamá-lo. Porém, eu havia aprendido a não ter pressa. Respirei. Senti que o mundo havia virado as costas para as paredes daquele quarto e me confundi na figura solitária dele. Senti que admirava meu próprio semblante. Pude ver o anjo da guarda que vovó insistia em nos lembrar da existência. Mas essa lembrança não passava de águas passadas sob a ponte de névoa e tempo que me separara da vida.

Não lembrei do acidente ou do motivo ou das palavras que ofenderam e fizeram ferir e chorar e gritar e morrer num sono de abandono. Das lembranças tristes, nada me restava. E ele permanecera como eu havia sonhado que fosse. Realmente, ele permanecera no leito de arrependimento e lágrimas. No entanto, as lágrimas que antes eram de meu irmão agora eram minhas. Ele poderia me ver deitado suspirando e piscando e aspirando a viver novamente.

Quem nunca desejou despertar para uma nova vida? Por instantes senti, mais pelo desejo de quem sonha, que seria feliz desta vez. Que teria amigos espalhados pelos cantos do mundo. Amigos distantes. Amigos de letras e mistérios. Porém, a palavra triste que não havia na lembrança e que não existia na maldade concebida pelo destino. A janela batendo me fez sentir o colchão. Elas não voltavam. Das lembranças tristes, nada me restava. Porém, elas espreitavam e cochichavam e conjuravam feitiços que vinham de encontro à fraternidade de nossa revida.

Ele me viu. Virou o olho devagar, daquele jeito que irmão mais novo e que viveu uma vida maior que a sua faz. Fez-me chorar sem controle. Doeu o abraço. Meu corpo não era mais meu, mas eu havia retomado minha alma. E nos juntamos como quem ama mais que distância ou som ou tempo ou morte. Juntamos-nos com quem não nasceu para nada além de sentir. Recordei dos dias em que rezávamos ao pé da cama com as mãos juntas. Recordei do Deus e dos santos para os quais rezávamos. Nossa Senhora do Perpétuo Socorro ainda tinha meu carinho. Lembrei daqueles dias em que A deixava me levar no seu colo. Ela me protegia, como uma Deusa, como uma Guerreira com mantos azuis e leves e singelos e doces como o amor de Mãe e Advogada do Filho no mundo grande e confuso representa.

O abraço durou para sempre. Para sempre com olhos fechados para só sentir e para só viver e para fazer despertar vida no meu pensar. Não importava qual o tempo. Não importava o local. Eu chorava e o salgado dos meus olhos se misturava com o mar de águas claras e verdes de sabedoria que vinham dos dele. Cada um escreve como sente e meu irmão jamais saberia. Porém, nada disso importava, pois, das lembranças tristes, nada me restava.

22 de mai. de 2007

O IRMÃO DEITADO

por Gravataí Merengue
argumento sugerido por Carolina Garofani
Conto nº1

Está em pé, observando o irmão deitado. Faz frio. O dia está claro. É estranho esse frio mesmo com o sol lá fora. É estranho o irmão deitado depois de tantos anos. Tudo é estranho.

Ele tenta chorar, mas nem isso consegue. O que fazer com o irmão que permanece inerte naquela cama? O que fazer agora? Ele não sabe como responder. Não consegue pensar. Nem chorar.

Pouco mais de uma década em coma. Dez anos deitado. Não, não ouvia nada do que diziam. Nem sentia os cheiros que colocavam. Tudo mentira. Talvez dê certo com alguém, nunca funcionou consigo.

E agora, depois de passar tanto tempo em coma, pouco após finalmente acordar, é obrigado a olhar o corpo morto do irmão caçula. O irmãozinho doente que faleceu nesta noite e que nunca mais poderá ser acordado.

Nunca.

Ele, em pé ao lado do irmão deitado e morto, sente-se mais impotente do que quando jazia em coma sem nem mesmo sentir coisa alguma. Impotente e com frio. E sem conseguir chorar
.

21 de mai. de 2007

Mãe?


Por Mercedes Gameiro
Desafio Caixa Preta III
Argumento sugerido por Carolina Garofani
Conto nº1



"Try to forget this, try to erase this, from the black board. Essa música não sai da minha cabeça. Que barulho chato. Esse rádio-relógio está apitando e vai me enlouquecer. Deixa eu dormir vai? Eu não tenho trabalho hoje. Que dia é hoje? Que fome…um big mac, um nuggets de 12 e uma coca grande por favor. Molho de mostarda, ta? Ah. Me vê uma batata grande também. Nossa, eu estou com muita fome. Parece que tem um oco gigante no meu estômago. Alguém desliga esse rádio-relógio! Não tem ninguém em casa? Que coisa insuportável! Ai que fome... cadê o meu big?
Que cheiro de desinfetante. Será que a Jussara não aprendeu ainda que só é pra limpar os banheiros depois que todo mundo tomou café? Eu nem acordei ainda e já tenho que sentir esse cheiro forte. Jussara!! Trava esse rádio-relógio! Hm…um pão na chapa da Jussara, com bastante manteiga dos dois lados, queijo de minas derretido na frigideira sujinha de pão, cheio de migalhas torradinhas, um ovomaltine batido no meu copo do Back to the Future, bem gelado. Por que será que eu tenho tanta fome? Preciso ligar pra Roberta. Ontem quando eu deixei ela em casa eu tava tão bêbado...Vou pedir desculpas, senão não vai ter arrego e hoje é sábado: dia de jantar fora com ela, depois um motelzinho...se o pai me der grana. Senão vou ter que pedir de novo a chave da garagem do Mamão. Putz! A Roberta detesta quando eu levo ela pra lá. Mas que frescura...não dá pra dizer que o meu carro é ruim. Super confortável vai?! Onde ela vai arrumar outro namorado com um Monza novinho, cheirando a Azarrô? Ainda mais que não é sempre na garagem. Tá que não é um lugar bonito nem nada, mas a música é boa. MÃEEE! Que droga esse rádio-relógio! Dá pra desligar essa coisa?
Preciso levar o carro pra lavar também. Não lembro direito, mas acho que caiu maionese do x-frango de ontem. Que burro: enche a cara, depois vai pro Beto Lanches comer X-frangão no carro limpinho! Se manchou o banco eu vou ficar muito puto. Vontade de fumar. Acabou meu cigarro e eu não comprei. Mas vou comer antes, acho. Hm…tudo o que eu quero é comer depois acender um Hollywood. Eu devia ser modelo pra fazer aqueles filmes do Hollywood. Viajar fazendo esporte radical e ganhando cigarro. Fora a grana do cachê. Mas fui fazer direito. A Jussara tinha que aprender a fazer a maionese do Beto Lanches. Não tem outra igual. Esse bip vai me enlouquecer! Cadê o meu bip por falar nisso? Que tecnologia incrível, né? Os caras da faculdade ficaram morrendo de inveja do meu bip novo. Pager, meu filho, pager é o nome do aparelho! Ha! Pensa o que? Empregão! Os caras pensam milênios na frente, fazem tudo igual à matriz em Nova Iorque. Precisa falar comigo e eu não estou em casa nem no escritório? Me bipa, gatinha... eu te ligo em cinco minutos. Se for urgente, é só mandar um 911. Não vou nem ensinar a Roberta a mexer nele. Tá louco? Se ela pega o telefone da Simone no meu bip adeus motelzinho de sábado! Putz, claro! Não é o rádio-relógio, é o meu bip que tá tocando. Mas quem vai me procurar num sábado? Que dia é hoje? Será que não é sabado? Se a Jussara está limpando o banheiro não é sábado. Por que que eu não fui trabalhar? Cadê meu bip? Mãe? Você tá aí? Ela deve ter ido passear com o nenem. Mania que nenem tem que pegar sol. Maior frio e o menino tendo que andar na rua. Será que ela fazia isso comigo? Por que que eu não fui trabalhar? Trabalho e faculdade juntos... Isso tá acabando comigo. Qualquer dia a Roberta vai arrumar outro, porque eu nunca tenho tempo pra sair com ela. Acorda as oito, trabalha até meio dia, uma hora e meia de almoço, trabalha até as seis e meia. Corre pra faculdade, aula até às dez e meia. Todo dia. Sem foga. Só sábado. Mas hoje não é sábado? Não pode! Ontem era sexta. A gente foi no casamento do Mauro e eu enchi a cara na festa, a Roberta ficou brava comigo por causa da Simone, eu levei ela pra casa brigando, voltei pra festa, peguei a Simone, dei uns beijos e fui pro Beto Lanches comer. Nossa! Lembrei! Sujei tudo. O carro e o vestido da Simone. Ai! Então tem duas furiosas comigo agora, não só a Roberta. Lembrei! O sanduíche caiu no colo dela quando ela me beijou, eu passei o guardanapo e borrou tudo. Isso, lembrei! Levei a Simone emburrada pra casa e depois...depois...depois o que mesmo? Não lembro como eu cheguei em casa. Que cheiro ruim de desinfetante, Jussara! Desinfetante? Será que não é sábado? Eu levei a Simone pra casa. Ela tava nervosa, bateu a porta do carro, me chamou de idiota atrapalhado, criança, imbecil. Lembrei. Depois eu vim pra casa. Depois… será? Tinha uma blitz? É. Isso. Sirene, luz piscando, alarme de carro, fum... fumaça? Ai. Minha cabeça... esse bip estava no carro. No que tinha sirene. Sirene. Luzes. Quanta gente. . . que bip insuportável. Eu lembro...Eu acho que eu lembro. Tinha um acidente. Não era blitz. Acidente. O som do carro que bateu estava alto: Jeremy spoke in class today, Try to forget this, try to erase this from the black board. O cara não conseguia sair. Eu parei na esquina pra ver, mas não podia ajudar. Não precisou, porque os bombeiros chegaram, e polícia, e um monte de gente. Os para-médicos tiraram o garoto do carro. Cara…a minha idade! Todo ferrado! Imobilizaram o cara, levaram pra ambulância. Eram mais três carros. Que idiota! Eu que bebo e ele que faz merda! Furou o sinal e bateu em três carros. Acho que matou gente. Será que ele morreu? Try to forget this, try to erase this from the black board. Ninguém pensou em desligar o som do carro. Acho que nem dava pra achar o som do carro. O outro carro pegou fogo. Eu lembro. Alguém desliga esse bip. Que ruim. Minha cabeça está doendo…eu lembro. Cadê a minha mãe? Jussara? Você tá aí? Cadê a minha mãe? Por que eu to nervoso? Por que eu to com fome? Por que eu não fui trabalhar? Cadê o nenem? Que silêncio ruim. Alguém desliga esse bip? Eu lembro. Acho. Lembro do barulho imenso. Tudo tremendo e rodando. Parece um terremoto. Fumaça. Cheiro de... Tudo molhado, é sangue. Era eu? O cara que furou o sinal era eu? Cadê a minha mãe? O que que é esse bip? "

- Mãaaaaae! Cadê a minha mãe??

Bip, bip, bip, bip.
Ele acorda no quarto do hospital, 14 anos depois, ouvindo o bip do equipamento de monitoração, sem fazer idéia de onde anda Roberta, Simone, seu bip, seu carro, ou de como possa ter acabado aquela noite de sexta-feira.

12 de mai. de 2007

O Copo, O Relógio e o Meio Bigode


Jan-Luc Dutrés, fotografado pelo intrépido Fastol Brambel.

(Alice Salles diz: Agora o Jan parece o Clive Owen pra mim!)