Conversadeira da Sé VI

Por Clélia Fagundes
Ele realmente estava ali, parado em frente a minha tenda!
Fechei a lona com as duas mãos e fiquei ali parada segurando e tentando encontrar um jeito de fugir daquele homem que insistia em sair dali comigo.
Olhei desesperada porque não tinha pra onde correr....pensei, então, que por algum milagre divino, o chão pudesse se abrir e eu sumiria pra dentro dele. Impossível, precisava pensar em outra saída....
E cadê o Zé que justo hoje resolveu atrasar???? Maldito Zé....
Devia estar em algum boteco enroscado com alguma nega que sabia sambar. Porque aquele lá? Não podia ver um quadril requebrando que ele se achegava e não largava mais...Não fazia por mal, eu sei, era o maldito samba na veia!
Nunca que eu tivesse sabido que o Zé algum dia havia me traído com outra mulher, isso todo mundo podia jurar, mas com o samba? Ah com o samba foram infinitamente tantas vezes que eu até perdi a conta.
Era a cara dele fazer aquilo comigo!
Me fazer ficar esperando eternamente por ele e o pior é que ele sabia que eu ia estar ali...
Mas justo naquela noite ele tinha que se atrasar? E eu...porque não me adiantei pra fechar a tenda mais cedo? Ai essa mania de fazer tudo certinho ....de achar que sempre vai chegar mais um e sairia mais doente ainda por ver a tenda fechada?
Um dia eu ainda largo esse Zé!
Só Deus pra ter misericórdia dessa alma!
Alma?
O homem....parado ali do lado de fora....estava tão perto que eu podia ouvir a respiração dele por detrás da lona. E a minha....será que ele também estava ouvindo? Meu coração batia tanto que achei que tivesse que sair dali com ele na mão....
O que eu podia fazer?
Os minutos se arrastavam intermináveis e eu até pensei em fingir que não estava mais ali.
Mas ele sabia que eu estava!....e com a certeza absoluta de que eu podia curar a dor da sua alma.
- Hadevina?!?
O que eu que eu faço? Minha Santinha Edevirges, o que eu faço? Se o Zé não chega vou ter que sair andando por essas ruas de São Paulo com um homem que quer curar a dor da sua alma! A minha experiência é aqui dentro...dentro da minha humilde tenda onde eu sou a rainha...
Mas la fora???? Naquele mundão de Meu Deus???? Eu fico tremendo só de pensar no que pode acontecer!
E ali...na minha aflição que já parecia durar uma eternidade, eu entendi a “dor de alma” daquele homem que a semana inteira veio na minha tenda a procura de remédio.....
A dor que ele sentia era a dor de quem estava só...
Soltei a lona devagar, minhas mãos estavam molhadas, todo meu corpo estava molhado....parecia que a tempestade do dia anterior estava saindo de dentro de mim....
A sombra daquele homem na lona....voltei para dentro da tenda , peguei uma fita k-7 do Vando.....e quando me virei para, enfim, sair com aquele homem e ajudar a curar a sua dor, ele já havia ido embora....deixando a sua solidão dentro de mim!.....
Naquela noite, talvez por uma brincadeira ou ironia do destino, o Zé não veio....
Entrei no primeiro boteco que eu vi aberto, pedi uma cerveja , dei a K-7 do Vando pro dono bar colocar no toca-fitas e ali....sentada num canto de mesa de um bar lotado....eu percebi...o quanto estava sozinha....















