26 de jun de 2007

Cumplicidade & Curitiba - III


Por Mercedes Gameiro


“O que você Sabe de mim pra dizer isso?” fiquei indignada demais, mas olhando S assim de cima, tudo o que eu queria era que ele Soubesse mesmo tudo de mim. Ai se ele soubesse metade de mim! “Eu Sei o que eu to vendo.” - ele disse com aquele meio sorriso meio lindo me dando essa meia raiva que me tirou do Sério. “Você vê tudo errado. Você não vê coisa nenhuma.” que raiva, que raiva! “Calma! Eu não disse nada tão ofensivo. Senta aqui.”
Senta aqui pra que? Pra escutar mais algum diminutivo? Se ele realmente enxergasse alguma coisa, Saberia que, no mínimo, eu Sou grande demais para caber em diminutivos, mesmo como ofensa.
Eu Só queria estar em casa escrevendo a minha coluna que não é lida, porque pelo menos alguém me paga para não Ser lida. Ninguém vai me pagar para fazer papel ridículo no parque, deitada na grama com um joelho enfaixado fake, e um diminutivo latejando entre as orelhas.

-Você me chamou de mulherzinha!

Mulherzinha…Eu tremo Só de pronunciar essa palavra. Eu ando nesse parque todos os dias e o que mais vejo são mulherzinhas. Todas falando mal de Seus homens – as que conseguem manter um. Todas desdenhando uma amiga, uma prima, uma vizinha. Todas com cabelos da mesma cor, usando a mesma roupa, frequentando os mesmos lugares, lendo o mesmo jornal, planejando como comprar mais sapatos Sem que o valor apareça no canhoto do cheque. As mais jovens talvez ainda não Sejam loiras, mas já prometem ser chatas e desinteressantes, e casar com um moço de bem na Igreja Santa Terezinha, e colocar os filhos no Anjo ou no Positivo, e vestirem todos eles como retardados, e comprar uma casa em Guaratuba ou Caiobá. Ela vai voltar da lua de mel dizendo: “a gente fez Miami e Orlando, né? depois a gente fez Saint Martin, né?”. Argh! Odeio! Elas casam, ficam loiras, vestem-se como Suas mães, falam como Suas mães, agem como Suas mães. Quem viu uma Curitibana de 32 anos viu todas, a não Ser eu, encalhada, Sentada no meu computador, com esse balde de café, sem encher o saco de um marido, a raiz do cabelo revelando que algo em mim não condiz com o meu meio. Eu culpo o tamanho da cidade. Não é possível escapar do padrão quando Só Se tem uns 30 km para cada lado para percorrer.

S continuava ali me olhando como Se eu tivesse me ofendido à toa. Meu rosto estava quente do sol ou da raiva ou do frio que deixava S com o nariz vermelho. A essa altura eu não Sei Se a fumaça que Sai da minha boca é do frio ou do ódio que eu tenho de Ser comparada a essas mulherzinhas - assim mesmo, pra ser uma mulher pequena bem pequena, não em tamanho, mas em "pequenez".

-Era pra você se ofender com a falta de personalidade.

Que besta…ele não Sabe nada!
- Eu Sei que eu tenho personalidade. Muita. Muito mais do que você pode Sonhar. Tanta, que talvez você não Suporte ficar perto de mim para não Ser esmagado por ela. Isso não me ofende: mulherzinha me ofende.
- Por que??
- Porque eu estou muito longe de Ser qualquer coisa que termine com “inha”.

S Soltou uma gargalhada gigante que fez com que 50% da população andante daquele horário olhasse na nossa direção.
- Qual é a graça?

Eu não conseguia Sair dali ou parar de olhar para ele. Eu poderia andar até o meu carro, ou até o bar, ou até o fim do mundo, mas droga! Aquele cara e Seu sarcasmo me intrigavam.

- Brabinha? Enfezadinha? Bonitinha?

Foi difícil não sorrir e eu juro que não queria. Eu culpo o vento gelado da manhã que faz meu cabelo voar e distrair a minha capacidade de ser malvadona.

- Não chega em “lindinha e fofinha” que eu vou embora!

Ele sorriu de orelha a orelha, levantou, me puxou pela mão e foi andando.

- Vem dar uma volta comigo, irritadinha.

Meu joelho doía um pouco, embora não tivesse mais um único arranhão debaixo daquela faixa. Acho que de tanto escrever, aprendi a acreditar nas minhas mentiras. A cada conto eu vivo dentro da personagem e passo dias não Sendo eu mesma. Por isso eu manquei como Se estivesse escrevendo e andando os passos dessa mulher que leva o peso da cruz nos joelhos e tem, segurando sua mão direita, a mão quente e confortável do dono de um sorriso arrasador.

Enquanto caminhávamos devagar até o carro de S, minha raiva foi Sendo diluída em litros e litros do cheiro bom que vinha da jaqueta dele, no jeito dele olhar nas vezes que ele me olhava mais fundo e na risada fácil, que mostrava os dentes brancos perfeitos. Não era assim que eu queria, não era mesmo, mas o parque ficou deserto. Às vezes um perfume forte e doce demais para o horário vinha da pista de cooper denunciando a presença de mais alguma mulherzinha, mas eu já não percebia nada... Só a mão quente de S tirando meu cabelo do rosto de tempos em tempos.

continua...

7 comentários:

Alice Salles... disse...

Hummm
Já vi cenas parecidas...
Já senti coisas parecidas, em momentos parecidos, em lugares parecidos...

Humm...
o S tá ficando interessante...

Felipe "Tito" Belão disse...

ahhh agora ele é Sarcástico também..

excelente!

agora casar na igreja de santa terezinha foi o melhor de tudo! mto bom mesmo!
hahahahaha
eu ri até nao poder mais..

culpo a piada pronta da cidade...

mas eu amo curitiba...

Flavia Melissa disse...

e eu não conheço curitiba!
mas vou tentar escrever, to gostando do rumo da história!

alguém quer ser meu consultor para assuntos curitibanos?

Carolina Garofani disse...

hahahaahahahahaahaha
santa terezinha, positivo ou anjo... demais!

putz mê... e é verdade. mas sabe o que? as curitibanas sao SIM todas iguais, mesmo antes dos 32.

eu conheço um milhao de clones... alias conheço nao, pq eu nao ando com esse tipo de gentalha! ;)

Gravatai Merengue disse...

Curitiba é a melhor capital do Paraná do mundo!

Frank disse...

Wow! que bonito. No entendi tres cuartos del articulo pero en una minima forma senti muchas emosiones muy relacionadas a las de mi pais. La sensacion de que todos te conocen; tambien te conoces cada rincon y colmado en todo el entorno del pueblo. Que bello!

P.S. Mercedes, tienes que explicarme con mas detalles el resto de tu articulo que esta lindisimo!

FAV

Carolina Garofani disse...

Eu amo e odeio curitiba.
Deixo meu coração aqui, mas ao mesmo tempo tenho vontade de sair voando pra beeeeem bem longe...