30 de mai de 2007

Eu e eu

Conto n˚1
Por Fastolf Brambel
Desafio Caixa Preta III



Branco... tudo branco. Muita luz. Cheiro bom. Tudo branco... Tudo estranho. Branco.

Não via nada, nada além de uma forte luz que me cegava. Sabe quando ligam a luz e você está dormindo? Então... só que branco. Tudo branco.

Rápidamente surgiu um vulto que, agora devagar, vinha em minha direção.

- Rafa? - ele disse.

Quanto mais o vulto se apróximava menos luz entrava. Quanto menos luz entrava mais nítidas as coisas ficavam.
Consgui ver um pouco. Aos poucos um rosto ia se formando enquanto repetia ininterruptamente o meu nome. Um rapaz bonito, preocupado e sorridente ao mesmo tempo.

- Rafa? Rafa, tá me ouvindo?

Olhei no fundo dos seus olhos buscando qualquer sinal de identificação. Ele sorriu, me olhou profundamente e sorriu. Recuei assustado assim que percebi quem é que estava ali. Era eu! Estava ali, eu! Era eu falando comigo mesmo. Um eu imóvel e um eu em pé. Um eu deitado e um eu me olhando. Se olhando, enfim...

Sem muito entender arrisquei um simples palpite:

- Você é um anjo?

Ele riu, e sorriu ainda mais.

- A mãe sempre diz que sim...
- Deus é mulher? - Perguntei entendendo menos ainda
- Não sei, Rafa, não sei.

Ele chorou. Deixou duas lágrimas escorreram. Primeiro veio a do olho esquerdo enquanto ele lentamente tremilicava a boca e o nariz. Depois veio a do olho direito, seguida de outro sorriso e um suspiro profundo.
Tudo doia. Começava a sentir cada membro do meu corpo amortecido.

- Estamos no céu, anjo-eu? - Perguntei enquanto ainda não conseguia ver tudo ao meu redor.
- Você não morreu, Rafa, e eu não sou um anjo. Estamos no hospital.

Me esforcei ao máximo para ver meu próprio corpo deitado, um lençol azul e alguns objetos decorando o que eu entendi ser uma parede.
Tudo agora era mais claro. Quero dizer, menos claro, mais nítido.
Um quarto branco, a cama, uma TV de plasma, cheiro bom, flores, muitas flores, dor no corpo, quadros e eu. Não, eu não... esse rapáz jovem e bonito, forte e sorridente, que não é um anjo mas também não sou eu... Então quem é? Pensei.

- Você tá bem? Deixa só eu apertar esse botãozinho aqui para chamar a enfermeira. Sente dor?

Quanto menos entendia, menos respondia.

- Mas... você?... eu?... por quê?...

- Rafa, sou eu, Lucas...

Meudeusdocéu.

- Lucas?
- Você lembra de mim?

Essa era uma questão difícil. No momento mal lembrava de mim. Lucas, para mim, era um nome e um sentimento. Lucas não era uma lembraça. Talvez fosse um futuro.

- O que aconteceu? - perguntei.
- Você sofreu um acidente, ficou alguns anos em coma. O médico falou que teriamos problemas com a sua memória. Que não lembraria de algumas coisas importantes de sua vida. Estou aqui para te ajudar.
- Eu não tô bem?
- Ele sempre disse que seu estado era bom, que não corria riscos e que acordaria quando seu corpo estivesse preparado.
- Alguns anos? Preparado? Eu não me sinto preparado! Cadê minha mãe? Meu Pai?

Nada era mais dolorido e mais confuso. Era como se eu estivesse assistindo 19 televisões ligadas de uma vez. Imagens, sons, esboços de memórias, raiva, dor e amor. Tudo ao mesmo tempo. Tudo em um segundo.
Eu era uma criança. Um adolescente irresponsável. Birrento e carinhoso. Lucas era choros e sorrisos embrulhados com pequenos pneuzinhos em um fralda fedida.

- Céus, você cresceu. Quantos anos você tem? Quantos anos eu tenho? Eu fiquei aqui todo esse tempo?
- Calma, calma...

Enquanto os enfermeiros chegavam cheios de coisas e perguntas pensei que era um homem vazio. Um homem sem presente e um homem sem passado.
Não pensei, com essa cabeça de menino, em tudo o que deixei de viver. Pensei, sim, em tudo o que vivi e não lembrava. Pensei no pouco que lembrava. Eu não era eu. Eu não era ninguém.

Pensei errado.

Fora do hospital Lucas me mostrou o mundo. Mostrou o que sou e o que eu fui. Mostrou quem ele foi para eu perceber quem ele é. Para eu perceber quem eu sou.
Realmente, não sou mais o mesmo. Não sou apenas eu. Agora eu sou dois.

29 de mai de 2007

Boneco Quebrado


Por Marilia Lopes
Conto nº1 - convidada especial
Desafio Caixa Preta III




O telefone toca, tento correr pra atender, mas minhas pernas são muito pequenas. Ahhh que saco, eu adoro atender telefone!!!

Ihhh...acho que não é coisa boa, estão gritando e chorando pela casa. Histéricos!!
Que correria é essa? Minha mãe parece doida, meu pai anda de um lado pro outro sem saber o que fazer. ALGUÉM PODE ME DIZER O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

Meu irmão não voltou pra casa...mamãe vai ficar furiosa!!!

Saíram e me deixaram na casa de minha avó. Obaaa...adoro ficar com ela, faz tudo que eu quero!!
Os dias depois desse foram estranhos, um silêncio pairava no ar. E nada do meu irmão. A bronca vai ser feia. Como sei disso? Porque meus pais andam cochichando pela casa e nunca consigo escutar o que falam. Mas tenho certeza que é dele.

Meus pais não paravam em casa.
Hoje fui ao hospital com minha mãe e para minha surpresa, quem estava lá? Meu irmão!!!
Credoooo...ele parece um boneco quebrado!!Belisquei a mão dele mas ele nem ligou...to gostando disso!!!

Anos visitando meu irmão e ele ainda está lá. Com o tempo entendi o porque.

Eu cresci e ele envelheceu!!

Na verdade, olho pra ele agora e vejo um estranho.

27 de mai de 2007

O semi-morto, o caderno e o bebê da capa

Conto no. 1
Por Flavia Melissa
Desafio Caixa Preta III



Eu fui a primeira coisa que ele viu quando abriu os olhos. Passados tantos anos, acho que ele esperava coisa melhor quando abriu os olhos e as pupilas me encararam pela primeira vez. Mas eu estava ali, ali do lado, dando sopa, de bandeja. Então ele abriu os olhos e me viu. E, é, foi isso aí.

Eu já tinha ouvido muitos papos a respeito daquele cara deitado ali, parecendo morto. Muitas vezes eu tinha me questionado se ele estava, mesmo, morto, mas o “bip-bip” da máquina ao meu lado não me permitiram duvidar de que ali havia vida ainda. De qualquer forma, prá mim, ele havia ganhado o apelido de semi-morto.

Eu tinha tido a oportunidade de acompanhar, por todos aqueles anos, o desenrolar da história daquele sujeito ali deitado. Ele recebia visitas sempre, vinham a mãe, o pai, os tios e primos. Uma vez veio até mesmo a velha avó, completamente gagá. Chegou, sentou-se ao meu lado e simplesmente me pegou no colo e começou a conversar comigo, me elogiando. E eu pensei, diacho, que é que essa velha fedendo a naftalina tá fazendo aqui comigo, passando a mão na minha bunda? Mas, de qualquer forma, a família do quase-morto era boa gente.

De todos, o que eu mais gostava era o irmão mais novo. Era a visita mais frequente. Dia sim, dia não, vinha ele, e eu já era capaz de reconhecer que era ele que vinha pelo barulho dos passos no corredor. Na verdade não era o barulho, mas a vibração dos passos, e quando ele entrava no quarto e fechava a porta a presença dele era assim tão forte que eu chegava a tremer inteiro, às vezes quase caia no chão. Ele entrava, olhava o irmão deitado ali, semi-quase-morto, se sentava ao meu lado e começava a falar, e a falar, e a falar.

Ele tinha esse caderno, que mantinha desde que havia começado a escrever, e que, pelo que eu havia entendido, tinha sido uma recomendação da analista que cuidava dele. Esses analistas são pessoas engraçadas. Um menino tem um irmão mais velho quase-semi-muito-quase-morto, sofre horrores por causa disso e tudo o que mandam o menino fazer é um caderno.

Mas não era qualquer caderno. Era um caderno grosso, capa bem gasta já, recheada de coisas coladas e escritas e remendadas até, porque era um caderno bem velho. A capa era grossa e tinha figuras, e as figuras mostravam um pai, uma mãe, o semi-muito-quase-morto e um bebê de colo. E não precisa ser muito inteligente ou esperto prá sacar que aquele menino dono do caderno era o bebê da capa.

O irmão chegava com o caderno, se sentava ali na poltrona, às vezes na cama com o irmão semi-morto-mais-morto-do-que-vivo e lia coisas do caderno. Contava coisas da escola. De casa. Do cachorro que estava bem velho e que tinham sido convencidos a sacrificar. De pesadelos que ele tinha. Da primeira namorada. De ter se formado na escola. Da morte do melhor amigo do prédio.

E ele falava também de outras coisas no caderno, falava de guerras, de filmes, de video-games, de mulheres famosas, de doenças novas, de políticos corruptos e de aviões que haviam caído. E ele falava, e falava, e falava e não parava nunca de falar e eu adorava ouvir aquelas histórias porque, com o tempo, também fui conhecendo a história daquele menino, irmão mais novo, que havia começado a fazer análise porque não aguentava mais ter que cumprir expectativas que haviam sido colocadas sobre ele desde que o irmão mais velho tinha se transformado naquele semi-quase-morto-mas-bem-morto-mesmo.

Com o tempo, fui me transformando em parte da família. Eu gostava daqueles momentos, algumas vezes chegava a me emocionar de ouvir os relatos no caderno, chegava a ter vontade de ser aquele semi-quase-super-morto só prá ter alguém que me visitasse e me contasse histórias dum caderno velho e gasto. Quando dormia, de noite, chegava a sonhar com o dia em que o semi-quase-mais-que-morto abrisse os olhos e visse o irmão mais novo e o caderno grosso e gasto de capa dura.

Mas um dia, o semi-morto abriu os olhos. E eu fui a primeira coisa que ele viu. Com o desespero, ou susto, ou vontade de se levantar da cama ele bateu em mim com toda força e eu caí no chão, me espatifando em milhares de cacos. A flor de plástico, que por anos a fio havia me acompanhado, também caiu no chão, rolando para debaixo da poltrona. E eu, ali, em pedaços, fui varrido rapidamente com uma vassoura dura e áspera.

E daqui, desta lixeira onde me encontro, só posso imaginar a cena dos dois irmãos, sentados lado a lado na cama, lendo juntos todas as memórias que me fizeram companhia ao longo de tantos anos.

25 de mai de 2007

Eu ouvi direito?

Conto nº 01
por Alice Salles
Desafio Caixa Preta III



“Eu ouvi direito?”

O relógio no meu celular marcava quinze para as quatro horas da tarde. Ele tinha pânico que esse momento chegasse, era quase um princípio para o caos em seu sistema. Sistema... Essa palavra não era usada há muito tempo naquela casa. Não havia sistema pra nada, nem para esquecer e nem para lembrar daquele dia que o nosso irmão parou no tempo pra observar tudo daquele prisma ilusório que ele sempre estimou tanto. Havia uma neura no ar, um certo peso e um arco-íris ao mesmo tempo, que segurava os ânimos do nosso irmão caçula. Ele tinha dois anos quando tudo aconteceu.

“Você ouviu direito, amor.”

Acordar não era o verbo.

“Ele não sabe de nada, ele parou no tempo!”

“O último beijo dele foi o beijo que eu lasquei no seu rosto risonho na minha formatura!”

“Não me lembro, anjo...”

“Você era só olhos, pequeno...”

Sempre foi assim em casa. Nomes pra tudo, nomes pro amor da gente.

Nosso irmão do meio era alguém esquecido na cama, não no peito. Nós não sabíamos o que fazer, mas o fizemos. Nos levantamos da mureta da frente de casa e entramos, muitas pessoas estavam presentes naquele dia. Era uma tarde fria como frio era o quarto dele.

Meu pequeno liderou o caminho, ele tem cabelos castanhos bem claros, lisos e tem as costas largas. É um moço tão lindo que teria me apaixonado por ele se não fosse sua irmã-mãe-amiga...

Nosso irmão que viveu tanto tempo longe estava lá deitado e seus olhos estavam abertos, ai como era bom ver seus olhos verdes cintilantes! O verde observava o movimento dos aparelhos, dos sinais dos bips, da cortina com o vento frio que soprava. As cortinas eram azuis. Ele estava sozinho e eu passei na frente do nosso pequeno.

Seus olhos se apertaram e olharam para mim.

Ele tinha a barba feita porque tinha uma enfermeira que cuidava disso. Seu cabelo também estava bem cortado, castanho escuro, um pouco crespo e a pele com aquele tom que já havia sido moreno de matar de inveja e agora era pálido e tinha o rosto fino de tão magro. Resultado de tantos anos vivendo por aparelhos. Todo o arrependimento por mantê-lo ali havia sumido. Meus olhos já estavam esbanjando lágrimas pra todos os lados, meu pequeno veio do outro lado da cama e quieto o observou.

“Você se lembra dele? Era pequenino...”

“Você está diferente, flor...”

“Estamos mais velhos...”

“Estamos?”

Nosso pequeno suspirou, soltou uma lágrima seca de doer a garganta.

“Vocês estão... irmão.”

Será que ele ainda tinha aquele sorriso gostoso? O dentinho da frente ainda lascado por causa de uma queda quando tinha dez anos, os lábios que se abriam por completo, mostrando os molares, mostrando sua felicidade por estar pelo menos vivo. Seus olhos verdes...

“Então não foi sonho!”

Ele estava feliz e eu não parava de sorrir. Meu corpo sorria e queria dançar ao lado dele, com ele e com nosso bebê naquele quarto que não era mais frio. Nosso pequeno também tinha se contagiado com tudo aquilo...

“Sonho!”

“Sonho?”

“Não foi, minha flor linda! Me tira daqui porque eu não sonhei!”

Ele tentava se levantar da cama e eu o abraçava. Era um encontro de corpos daquelas almas que por ventura se esbarraram em seu sonho, na sua cama, nos seus olhos verdes...

“Você também não era sonho...”

Nosso pequeno virou nosso grande amor e tudo ali era festa. Ele era alguém novamente, com lembranças inventadas e com uma vida inteira pra se conhecer, era um adolescente adulto o suficiente para ser responsável por todos nós. Aqueles minutos viraram troféu e mais uma vez nosso pequeno salvou o dia...

Foi pra rua buscar flores, foi pro supermercado trazer todas as marcas de chocolate novas, de todos os tipos, com todos os recheios e de todos os formatos pro irmão conhecer. Foi à locadora e pegou todos os filmes importantes desses últimos catorze anos... Trouxe refrigerante, pipoca e beijinho, que ele sabia que eu amava.

Ao se olhar no espelho, nosso irmão recentemente renascido de seu longo sono viu nos seus olhos o dia do acidente e agradeceu por uma chance depois desse longo tempo, depois dessas tentativas frustradas de seus pais falecidos, de sua irmã flor e de seu irmão sereno. Agradeceu tanto que chorou durante horas e entre soluços, abraços e chocolate me dando de volta a única felicidade ainda restante em minha vida... Aquela pela que se vale mantê-la.

24 de mai de 2007

Enquanto os anjos dormem

Conto nº 01


por Felipe Belão Iubel



(com o objetivo de declarar meu amor e desejo de reconciliação com meus amigos e irmãos das letras e dos dedos quentes nos teclados do Brasil)

Acordei confuso. Senti que meu irmão me segurava pela mão, mesmo morando sozinho. Pude ouvir sua voz ao longe e tive saudades. Saudades de um tempo que talvez tenha passado em um mundo que não se abre para memória ou palavra. Um mundo que era só meu e que insistia em permanecer assim. Gelo e saudade. A atmosfera fazia com que o ar saísse de meus suspiros abandonassem meu corpo em chamas. Era como se eu não respirasse e não abrisse os olhos há muito tempo ou como se jamais os tivesse usado. Meu corpo cansado me fazia sentir que eu não me encaixava e que, àquele ou a qualquer outro universo, eu não pertencia.

Engraçado pensar que tudo ao meu redor, que pouco a pouco parecia cristalino e visível aos meus olhos, dissesse tanto do que eu era. As paredes azuis me faziam lembrar da cor e um movimento lento do meu braço fez descer a coberta, deixando minha pele entrar em contato com a época do ano que eu me lembrava de gostar tanto. Não era mais o frio de minhas paixões silenciosas, nem o abandono do meu sono profundo. E o toque do meu irmão se materializou ao meu lado.

Minha primeira lágrima fez arder todo o resto do olho, trazendo consigo mais algumas delas. Ele suspirava e não me enxergava de olhos abertos. Mesmo assim seu carinho se manifestava em devoção. Minha voz não saía e não pude chamá-lo. Porém, eu havia aprendido a não ter pressa. Respirei. Senti que o mundo havia virado as costas para as paredes daquele quarto e me confundi na figura solitária dele. Senti que admirava meu próprio semblante. Pude ver o anjo da guarda que vovó insistia em nos lembrar da existência. Mas essa lembrança não passava de águas passadas sob a ponte de névoa e tempo que me separara da vida.

Não lembrei do acidente ou do motivo ou das palavras que ofenderam e fizeram ferir e chorar e gritar e morrer num sono de abandono. Das lembranças tristes, nada me restava. E ele permanecera como eu havia sonhado que fosse. Realmente, ele permanecera no leito de arrependimento e lágrimas. No entanto, as lágrimas que antes eram de meu irmão agora eram minhas. Ele poderia me ver deitado suspirando e piscando e aspirando a viver novamente.

Quem nunca desejou despertar para uma nova vida? Por instantes senti, mais pelo desejo de quem sonha, que seria feliz desta vez. Que teria amigos espalhados pelos cantos do mundo. Amigos distantes. Amigos de letras e mistérios. Porém, a palavra triste que não havia na lembrança e que não existia na maldade concebida pelo destino. A janela batendo me fez sentir o colchão. Elas não voltavam. Das lembranças tristes, nada me restava. Porém, elas espreitavam e cochichavam e conjuravam feitiços que vinham de encontro à fraternidade de nossa revida.

Ele me viu. Virou o olho devagar, daquele jeito que irmão mais novo e que viveu uma vida maior que a sua faz. Fez-me chorar sem controle. Doeu o abraço. Meu corpo não era mais meu, mas eu havia retomado minha alma. E nos juntamos como quem ama mais que distância ou som ou tempo ou morte. Juntamos-nos com quem não nasceu para nada além de sentir. Recordei dos dias em que rezávamos ao pé da cama com as mãos juntas. Recordei do Deus e dos santos para os quais rezávamos. Nossa Senhora do Perpétuo Socorro ainda tinha meu carinho. Lembrei daqueles dias em que A deixava me levar no seu colo. Ela me protegia, como uma Deusa, como uma Guerreira com mantos azuis e leves e singelos e doces como o amor de Mãe e Advogada do Filho no mundo grande e confuso representa.

O abraço durou para sempre. Para sempre com olhos fechados para só sentir e para só viver e para fazer despertar vida no meu pensar. Não importava qual o tempo. Não importava o local. Eu chorava e o salgado dos meus olhos se misturava com o mar de águas claras e verdes de sabedoria que vinham dos dele. Cada um escreve como sente e meu irmão jamais saberia. Porém, nada disso importava, pois, das lembranças tristes, nada me restava.

22 de mai de 2007

O IRMÃO DEITADO

por Gravataí Merengue
argumento sugerido por Carolina Garofani
Conto nº1

Está em pé, observando o irmão deitado. Faz frio. O dia está claro. É estranho esse frio mesmo com o sol lá fora. É estranho o irmão deitado depois de tantos anos. Tudo é estranho.

Ele tenta chorar, mas nem isso consegue. O que fazer com o irmão que permanece inerte naquela cama? O que fazer agora? Ele não sabe como responder. Não consegue pensar. Nem chorar.

Pouco mais de uma década em coma. Dez anos deitado. Não, não ouvia nada do que diziam. Nem sentia os cheiros que colocavam. Tudo mentira. Talvez dê certo com alguém, nunca funcionou consigo.

E agora, depois de passar tanto tempo em coma, pouco após finalmente acordar, é obrigado a olhar o corpo morto do irmão caçula. O irmãozinho doente que faleceu nesta noite e que nunca mais poderá ser acordado.

Nunca.

Ele, em pé ao lado do irmão deitado e morto, sente-se mais impotente do que quando jazia em coma sem nem mesmo sentir coisa alguma. Impotente e com frio. E sem conseguir chorar
.

21 de mai de 2007

Mãe?


Por Mercedes Gameiro
Desafio Caixa Preta III
Argumento sugerido por Carolina Garofani
Conto nº1



"Try to forget this, try to erase this, from the black board. Essa música não sai da minha cabeça. Que barulho chato. Esse rádio-relógio está apitando e vai me enlouquecer. Deixa eu dormir vai? Eu não tenho trabalho hoje. Que dia é hoje? Que fome…um big mac, um nuggets de 12 e uma coca grande por favor. Molho de mostarda, ta? Ah. Me vê uma batata grande também. Nossa, eu estou com muita fome. Parece que tem um oco gigante no meu estômago. Alguém desliga esse rádio-relógio! Não tem ninguém em casa? Que coisa insuportável! Ai que fome... cadê o meu big?
Que cheiro de desinfetante. Será que a Jussara não aprendeu ainda que só é pra limpar os banheiros depois que todo mundo tomou café? Eu nem acordei ainda e já tenho que sentir esse cheiro forte. Jussara!! Trava esse rádio-relógio! Hm…um pão na chapa da Jussara, com bastante manteiga dos dois lados, queijo de minas derretido na frigideira sujinha de pão, cheio de migalhas torradinhas, um ovomaltine batido no meu copo do Back to the Future, bem gelado. Por que será que eu tenho tanta fome? Preciso ligar pra Roberta. Ontem quando eu deixei ela em casa eu tava tão bêbado...Vou pedir desculpas, senão não vai ter arrego e hoje é sábado: dia de jantar fora com ela, depois um motelzinho...se o pai me der grana. Senão vou ter que pedir de novo a chave da garagem do Mamão. Putz! A Roberta detesta quando eu levo ela pra lá. Mas que frescura...não dá pra dizer que o meu carro é ruim. Super confortável vai?! Onde ela vai arrumar outro namorado com um Monza novinho, cheirando a Azarrô? Ainda mais que não é sempre na garagem. Tá que não é um lugar bonito nem nada, mas a música é boa. MÃEEE! Que droga esse rádio-relógio! Dá pra desligar essa coisa?
Preciso levar o carro pra lavar também. Não lembro direito, mas acho que caiu maionese do x-frango de ontem. Que burro: enche a cara, depois vai pro Beto Lanches comer X-frangão no carro limpinho! Se manchou o banco eu vou ficar muito puto. Vontade de fumar. Acabou meu cigarro e eu não comprei. Mas vou comer antes, acho. Hm…tudo o que eu quero é comer depois acender um Hollywood. Eu devia ser modelo pra fazer aqueles filmes do Hollywood. Viajar fazendo esporte radical e ganhando cigarro. Fora a grana do cachê. Mas fui fazer direito. A Jussara tinha que aprender a fazer a maionese do Beto Lanches. Não tem outra igual. Esse bip vai me enlouquecer! Cadê o meu bip por falar nisso? Que tecnologia incrível, né? Os caras da faculdade ficaram morrendo de inveja do meu bip novo. Pager, meu filho, pager é o nome do aparelho! Ha! Pensa o que? Empregão! Os caras pensam milênios na frente, fazem tudo igual à matriz em Nova Iorque. Precisa falar comigo e eu não estou em casa nem no escritório? Me bipa, gatinha... eu te ligo em cinco minutos. Se for urgente, é só mandar um 911. Não vou nem ensinar a Roberta a mexer nele. Tá louco? Se ela pega o telefone da Simone no meu bip adeus motelzinho de sábado! Putz, claro! Não é o rádio-relógio, é o meu bip que tá tocando. Mas quem vai me procurar num sábado? Que dia é hoje? Será que não é sabado? Se a Jussara está limpando o banheiro não é sábado. Por que que eu não fui trabalhar? Cadê meu bip? Mãe? Você tá aí? Ela deve ter ido passear com o nenem. Mania que nenem tem que pegar sol. Maior frio e o menino tendo que andar na rua. Será que ela fazia isso comigo? Por que que eu não fui trabalhar? Trabalho e faculdade juntos... Isso tá acabando comigo. Qualquer dia a Roberta vai arrumar outro, porque eu nunca tenho tempo pra sair com ela. Acorda as oito, trabalha até meio dia, uma hora e meia de almoço, trabalha até as seis e meia. Corre pra faculdade, aula até às dez e meia. Todo dia. Sem foga. Só sábado. Mas hoje não é sábado? Não pode! Ontem era sexta. A gente foi no casamento do Mauro e eu enchi a cara na festa, a Roberta ficou brava comigo por causa da Simone, eu levei ela pra casa brigando, voltei pra festa, peguei a Simone, dei uns beijos e fui pro Beto Lanches comer. Nossa! Lembrei! Sujei tudo. O carro e o vestido da Simone. Ai! Então tem duas furiosas comigo agora, não só a Roberta. Lembrei! O sanduíche caiu no colo dela quando ela me beijou, eu passei o guardanapo e borrou tudo. Isso, lembrei! Levei a Simone emburrada pra casa e depois...depois...depois o que mesmo? Não lembro como eu cheguei em casa. Que cheiro ruim de desinfetante, Jussara! Desinfetante? Será que não é sábado? Eu levei a Simone pra casa. Ela tava nervosa, bateu a porta do carro, me chamou de idiota atrapalhado, criança, imbecil. Lembrei. Depois eu vim pra casa. Depois… será? Tinha uma blitz? É. Isso. Sirene, luz piscando, alarme de carro, fum... fumaça? Ai. Minha cabeça... esse bip estava no carro. No que tinha sirene. Sirene. Luzes. Quanta gente. . . que bip insuportável. Eu lembro...Eu acho que eu lembro. Tinha um acidente. Não era blitz. Acidente. O som do carro que bateu estava alto: Jeremy spoke in class today, Try to forget this, try to erase this from the black board. O cara não conseguia sair. Eu parei na esquina pra ver, mas não podia ajudar. Não precisou, porque os bombeiros chegaram, e polícia, e um monte de gente. Os para-médicos tiraram o garoto do carro. Cara…a minha idade! Todo ferrado! Imobilizaram o cara, levaram pra ambulância. Eram mais três carros. Que idiota! Eu que bebo e ele que faz merda! Furou o sinal e bateu em três carros. Acho que matou gente. Será que ele morreu? Try to forget this, try to erase this from the black board. Ninguém pensou em desligar o som do carro. Acho que nem dava pra achar o som do carro. O outro carro pegou fogo. Eu lembro. Alguém desliga esse bip. Que ruim. Minha cabeça está doendo…eu lembro. Cadê a minha mãe? Jussara? Você tá aí? Cadê a minha mãe? Por que eu to nervoso? Por que eu to com fome? Por que eu não fui trabalhar? Cadê o nenem? Que silêncio ruim. Alguém desliga esse bip? Eu lembro. Acho. Lembro do barulho imenso. Tudo tremendo e rodando. Parece um terremoto. Fumaça. Cheiro de... Tudo molhado, é sangue. Era eu? O cara que furou o sinal era eu? Cadê a minha mãe? O que que é esse bip? "

- Mãaaaaae! Cadê a minha mãe??

Bip, bip, bip, bip.
Ele acorda no quarto do hospital, 14 anos depois, ouvindo o bip do equipamento de monitoração, sem fazer idéia de onde anda Roberta, Simone, seu bip, seu carro, ou de como possa ter acabado aquela noite de sexta-feira.

12 de mai de 2007

O Copo, O Relógio e o Meio Bigode


Jan-Luc Dutrés, fotografado pelo intrépido Fastol Brambel.

(Alice Salles diz: Agora o Jan parece o Clive Owen pra mim!)

11 de mai de 2007

O Copo, o Relógio e o Telefone XII

Estão os três sentados na cama do hotelzinho barato de beira de estrada, atônitos com o noticiário da TV que bombardeava péssimas novidades:

"...as autoridades pretendem processar o fabricante dos coletes, pois os disparos não foram feitos por uma arma muito poderosa, segundo informa a perícia... o policial assassinado se chamava Mauricio Arquimedes... não há testemunhas..."

Mr. W
- Apenas corrigindo o que eu havia dito ainda há pouco: sim, ele morreu.

Dana
- Ai, e agora?

Jan
- Putamerda! Todo mundo vem atrás de mim!

Mr. W
- Nada. Vamos dar um jeito nisso. Em primeiro lugar, desliguem seus celulares.

Dana
- Mas por quê?

Mr. W
- Não vou ficar explicando esse tipo de coisa agora, apenas tratem de desligar.

Jan
- Quem é esse cara que ta dando ordem?

Mr. W
- Não estou dando ordem. Estou tentando te livrar dessa. E só estou fazendo isso pela Dana. Melhor você tomar um banho, esfriar a cabeça e ficar na sua.

Jan
- Mas...

Mr. W
- Agora, sim, estou dando ordem.

Jan vai ao banheiro. Mr. W fica com Dana no quarto.

Mr. W
- Ele é mesmo o amor da sua vida?

Dana
- Pior que é...

Mr. W
- Ok... O importante é ter saúde, né? Vou fazer umas ligações, volto ao quarto em dez minutos, no máximo. Nada de ligar para ninguém, nem colocar o nariz para fora.

Dana
- Você tá mandão hoje, hein?

Mr. W
- Eu sempre fui. E você sempre gostou. Mas, em respeito ao sujeito que está tomando banho, não darei uma palmada em sua bunda. Embora eu saiba que você quer muito isso...

Dana apenas sorri e dá uma piscadela a Mr. W. Ele sai do quarto.

Minutos depois, Jan sai do banheiro, de calça jeans, sem camisa e a toalha nas costas.

Jan
- O banho foi bom, eu tava uma meleca!

Dana
- Agora é minha vez.

Jan
- Cadê o mister?

Dana
- Foi fazer umas ligações, ele já vem.

Jan
- Ah! Então eeeeeele pode ligar! Bonito isso...

Dana
- Ele sabe o que faz. E está ajudando.

Jan
- Sei, sei... Jajá ele cobra o preço. Esses caras não trabalham de graça.

Dana
- Ele é rico, Jan! Mais do que você imagina.

Jan
- Agora é que fiquei cabreiro! Sei bem qual o preço que ele vai cobrar.

Dana
- Qual? Sexo?

Jan
- E não?

Dana
- Olha, Jan... Eu não conheço uma mulher que não PAGARIA para dar para ele. Ele faz isso porque é meu amigo, só isso.

Jan
- Sei, sei, sei...

Enquanto Jan fica resmungando na cama, Dana vai ao banho. Mr W entra no quarto.

Mr. W
- Pronto, já tá tudo mais ou menos resolvido.

Jan
- Resolvido? Tudo? Como assim?

Mr. W
- Troquei o carro. Vieram buscar o Mercury, deixaram outros. E aproveitei para plantar a informação de que o Mauricio foi morto por um fulano aí.

Jan
- Que fulano?

Mr. W
- Um de São Paulo, desafeto de um amigo, coisa assim. Ah, pouco importa! A Dana tá no banho?

Jan
- Tá.

Mr. W
- Melhor assim. Vou embora sem me despedir. Toma essa chave. É do carro que está parado aqui na porta.

Jan
- Que carro?

Mr. W
- Não se preocupa com isso. O carro está "ok". E tem alguns suprimentos no porta-malas.

Jan
- Que suprimentos? Não estou entendendo mais nada...

Mr. W
- Uma 9 mm. Larga essa "colt", porque você não está no velho-oeste e nem é o Clint Eastwood nos filmes antigos. Usa uma arma de verdade. E tem duas garrafas de "Grey Goose".

Jan
- O que é isso?

Mr. W
- Já que vai largar o colt e pegar uma arma de verdade, é bom largar essas bebidinhas bobas e tomar algo de verdade. É a melhor vodka do mundo. A Dana está saindo do banho. Mande um abraço a ela.

Mr. W sai do quarto. Jan fica sem saber direito o que está havendo, cada vez mais perturbado com as novidades. Dana sai do banho cantarolando:

"...diz aonde você vai, que eu vou varrendo..."

Jan
- Dana! Você saiu pelada do banho!

Dana
- Jura?

Jan
- E se o Mr. W te visse?

Dana
- Eu sei que ele não está mais aqui. Ele odeia despedidas. Ele vai embora sem avisar. É sempre assim. Parece o Mestre dos Magos.

Jan
- Hm...

Dana
- E também sei que ele já resolveu todas as coisas chatas. Agora, somos nós dois aqui, nesse fim-de-mundo...

Eles se abraçam e se beijam com violência.

CONTINUA...

O Copo, o Relógio e o Telefone XI



Por Fastolf Brambel - Desafio Caixa Preta II


Depois de toda essa confusão e de já não saber mais o que pensar, e muito menos o que sentir, sentei para uma breve reflexão.
Minha cabeça girava. Girava feito um roda-roda em um playgroud de crianças. Girava como esses que rodam com crianças felizes que se jogam para o prazer, nada muito diferente de mim... Talvez girasse pela mistura, talvez apenas por desespero. A lembraça daquela sala revirada coloborava ainda mais para meu caos emocional. Uma mistura de adrenalina, amor e ódio, com uma pitada exagerada de raiva. "Aquele gordo desgraçado deita e rola com minha paixão, bagunça a minha casa e ainda pretende desbagunçar a minha vida com o chamado da morte?!?! Humpf, a proteção de banha deve aumentar a sua coragem. Mas vou te dizer uma coisa, gordo imundo, banha não é a prova de balas!"
Levantei rápido e vigoroso para pegar a minha proteção... Um Colt 1911 38mm que meu pai guardava escondido atrás de JFK Oliver Stone Director's Cut, sem legenda, um filme em 3 VHS só poderia servir para esconder alguma coisa.
Tudo girava, girava, girava. As cores mudavam de tom. Acho que quatro horas de sono e um sonho lindo não foram o suficiente... mas naquele momento não poderia dormir."Não posso dormir, onde mesmo guardei essa arma?" Procurei no armário do quarto, no armário do banheiro, nas gavetas da sala e nada. Nada. O desespero começava a surgir quando os efeitos de tudo que usava deram uma brecha para minha memória. Lembrei. Armário da cozinha, dentro da panela de pressão! Alguém realmente acha que um cara que mora sozinho usa a panela de pressão? Entrei na cozinha e uma rápida olhada já me lembrou de copos quebrados, comidas e panelas dividindo o mesmo espaço, o chão. Naquela hora, sim, o desespero dominava. "Ele levou a arma. E agora? Estou morto, ele realmente vai me matar". Lembrei, em pânico, de ver um objeto não identicado em sua mão.

Voltei ao quarto e sentei na cama, levei as mão ao rosto expressando ainda mais o meu descontrole, nem o barulho dos meus pés, que batiam freneticamente contra os tacos do chão, era possível suportar. "Opa, os tacos..." Uma injeção de alívio e mais adrenalina quando mais uma lembrança veio a tona. Lembrei que levei tempos para convidar a família para um jantar, e ha tempos também comemos a maravilhosa feijoada de mamãe, aqui. Feijão, panela de pressão, tacos. Escondi debaixo dos tacos do quarto para não assustar minha irmã.
Com a arma em mãos e essa bunda mole na cama só me faltava uma coisa. Apenas uma... Coragem.
Confesso que não sabia o que fazer. Qual seria o próximo passo? "Vou até lá, dou um tiro na testa e um no peito. Não, muito rápido. Tá, chego bem perto, coloco a arma na cabeça do gordo e falo que se ele não desaparecer da cidade ele vira comida de porco, praticamente canibalismo. Não, muito leve... Já sei, deito o gordo no chão, mando morder o meio fio e piso na cabeça do bastardo. Também não, é um pouco violento."
E assim fui tentando disfarçar o medo, mas com uma coisa fixa em mente. "Preciso fugir com Dana... Dana... Dana".

A tontura já era indisfarçável e tudo foi ficando preto. Abri os olhos devagar sem acreditar muito em minha visão embaçada. Um quarto velho e sujo com uma cara conhecida e um terrível aroma de cigarro barato. No meu horizonte apenas um dedo para fora da meia do pé.
Uma enorme sensação de estranheza junto com a de que essa cena era familiar. Saí lentemante do quarto e atravessei um corredor lotado de mulheres feias com roupas gastas, quase nuas, me olhando com um certo tom de reprovação. De cima a baixo. Sempre me achei um cara bonito, mas aquilo realmente não me era estranho.
No bar, um garçom sem rosto me falava coisas inaudíveis enquanto as propagandas no espelho não paravam de mudar. Nomes de uisque, vodka, e outras bebidas vagabundas. Tentava fazer a minha escolha dentre os nomes e marcas quando reparei uma coisa medonha em meu semi-belo reflexo. Meia coisa medonha. Faltava metade de meu bigode...
Logo depois percebi que precisava, definitivamente, mudar o toque do meu celular. Era Dana.

- Jan-Luc, onde você está?

Olho ao redor enquanto apalpo meu bigode e percebo que minha própria cama era um lugar seguro. Outro sonho.

- Em casa, acho que caí no sono...
- Em casa, seu idiota? Tem um louco querendo te matar e você dorme?? Talvez mereça mesmo.
- Onde você tá?
- 12 com 18. Porto.
- Tô indo praí.
- Venha rápido.

Ok, não tão seguro...

Saí correndo com minha arma na cintura e uma pequena mala com algumas cuecas e camisetas. Na porta lembrei que precisava estar protegido caso o maníaco cruzasse o meu caminho. Um gole de cachaça era o suficiente para firmar o pulso.
Gostaria que tudo isso fosse um sonho. Que acorassemos, eu e Dana, em um quarto lindo e branco, numa cama grande e confortável.
Mas eram realmente os sonhos que andavam me impressinando. Fiquei pensando sobre a imagem de garoto esperto e gente boa que meus pais tinham de mim. Fiquei pensando no sonho repetitivo sobre metade de meu bigode. Sobre metade de mim. Um lugar que detesto estar embora acabe cedendo. Seria aquele um Jan assassino? Ou um Jan sem Dana? Um Jan sem vida!

Entrei na 12, passei a 16. 18. Era ali. Um lugar meio distante, no meio do porto abandonado, bastante escuro e que em nada me agrada.
Procurei cuidadosamente por Dana, não queria chamar muita atenção, ainda mais por ali.
Mas me parece que Dana não teve o mesmo cuidado. Em frente ao maior barracão da área das fábricas vi estacionado um Mercury Monterrey dourado. Estavam lá Dana e o Negão.

- Ufa, que bom que você está bem, Jan.
- O que ele ta fazendo aqui?
- Ele veio ajudar, porra, não seja tão hostil.
- Desculpa, obrigado. É que eu pretendia não chamar muita atenção.
- Ele nos será útil. Tem um carro veloz, um bom porte físico e contatos fora da cidade.Fora isso é amigo.
- Você quer me explicar o que tá acontecendo e porque minha vida está em risco?
- Nossa vida, Jan. E é simples, Maurício quer te matar e por eu não querer que você morra, quer me matar também. O complicado eu explico com o tempo.

Antes de entrarmos no carro fomos interrompidos por um grito soante e crescente: "Filhos daaaaaaa puuuuuuuuu-taaaaaaaa".
E lá vinha o gordo, em slow-motion, correndo em nossa direção com o objeto, agora identificado, em mãos. Uma Magnum 45.

- Isso vai dar meleca. Disse Mr. W.

Enquanto o gordo se aproximava eu, preocupado, saquei também a minha arma.
Pow, foi o que se ouviu. E tudo passou a girar ainda mais. Ouvi Dana gritar, mas meu ombro latejando indicava que o atingido era eu. Apaguei.

- O que é que você fez- disse Dana chorando.
- Calma, Maurício, mantenha a calma.
- Cala a boca, Walter - disse o gordo enquanto apontava a arma para a cabeça de Dana - Senão, além desses dois, eu mato você também. É melhor você dar no pé.

Por sorte desmaiei por apenas alguns segundos. Com o resto de minha forças ergui minha Colt enquanto Dana fazia não com a cabeça e tentava dizer alguma coisa. Não ouvi.

- Olha pra cá filho da puta, sem vergonha, dá uma olhada no meu sangue e vem sentir o teu perdão. - Falei enquanto puxava o gatilho. Puxei 5 vezes.

Dana chorava, gritava cada vez mais, enquanto Mr. W me ajudou a entrar no carro.

- Cuiado para não sujar meu banco branco.

Acertei o desgraçado 4 vezes. Uma na coxa e 3 vezes no peito. Fiquei orgulhoso. Orgulhoso e me cagando de medo. Tudo ao mesmo tempo.

- Jan, você é um imbecil - disse Dana enquanto nos afastavamos da cena do crime.
- Eu salvei a sua vida e você me xinga, Dana? Não entendo.
- Eu gritei 3 vezes, Jan. Ele é Policia. PO-LI-CIA, Jan-Luc. Gambé...
- O que??? Eu não ouvi nada. Não acredito. Fodeu. Matei um policial.
- Não matou. - murmurou Mr. W - Não matou.
- Como assim?
- Ele estava de colete.
- De balas?
- É, de colete.
- Como é que você sabe??
- Porque não dava para ver as tetas marcando a camiseta.
- Que nojo... E agora?

Dana chorava.

Continua...

10 de mai de 2007

O Copo, o Relógio e o Telefone X


Por Rodrigo Gameiro - Desafio Caixa Preta II


Sim, era o gordo asqueroso que eu tinha visto da outra vez. Eu, Ele e Ela no mesmo cômodo. Algum silêncio. Ninguém fala. Pareceram longas horas de vazio sonoro quando o gordo interfere.

“Desculpe dona, a porta estava aberta, eu estou procurando a Sra. Janete. É aqui que ela mora?”

“Não, senhor deve estar enganado, aqui não tem ninguém com este nome”

“Mil perdões”

Eu fiquei sem reação. Como é difícil ser homem nestas horas. Eu sabia que tudo aquilo era mentira. Mas e daí?? Estava em um momento tão bom com Dana que não queria estragar. Aliás que ela dava para aquele sujeito desprezível eu já sabia. Porque ter a confirmação da boca da própria? Para sofrer mais? Não, muito obrigado!

Dana levantou-se e levou o obeso até a porta. Depois encenou uma reclamação com o porteiro pelo interfone. Entrou no quarto dizendo

“Imagine a meleca que não poderia ter acontecido? Poderia estar sozinha em casa. . . quem sabe nua, saindo do banho!!”

Dana deitou-se do meu lado e acariciava os fios do meu bigode. Eu olhava para o teto, mas estava com o foco em outro lugar. Poxa, era complicado! Eu sabia que aquilo tudo era mentira, mas era uma mentira bem intencionada! Foi para não me magoar que Dana criou tudo aquilo. Ou seja, no fundo ela gosta de mim. Mas mesmo assim, não dava para dissimular.

“Dana, não to legal, quero ir para casa. Não vou para lá faz muito tempo”

Reparei um daqueles momentos mágicos de mudança. Aquelas guinadas que acontecem depois de momentos traumáticos. A cocaína me segurava de pé há tantos dias que nem sei se hoje é terça, sábado ou quinta feira. Pressentimento de mudança! Minha respiração estava pesada e morna como a de um doente. Eu não tinha vocação para este estilo de vida. Naquele momento parecia estar sendo iluminado.

No caminho de volta para a casa tinha surtos de felicidade. Parecia estar desacorrentado do inferno astral que meu cotidiano se tornara. Enquanto caminhava para o ponto de ônibus, porque sabe se lá onde estava meu carro, aquela música do Chico Buarque se repetia constantemente dentro da cabeça.

“se o amor é como um grão, vive e morre trigo, nasce e morre pão”

Chico era sábio! O maior compositor do Brasil! Se uma pessoa me diz que não gosta de Chico Buarque, eu nem converso! Já sei que se trata de uma ignorante com mal gosto.
A renovação corria em minhas artérias. Não restavam dúvidas, o processo de reciclagem estava por começar.

Chegando nas redondezas de casa, tive a impressão de ver o gordo que Dana tinha uma coisa que eu ainda não sabia o quê. Ele estava do outro lado da rua, parecia me observar de rabo de olho, caminhava com os passos apertados. Um ônibus passou entre nós e não pude mais o localiza-lo.

Pisei em casa, estava tudo revirado. Não me lembro de ter bagunçado nada deste jeito. Mas também não me lembro de muita coisa nos últimos dias ou semanas. Enquanto tinha energias arrumei o que pude, passei uma vassoura no chão. Abri o armário de comida e vi que um supermercado era prioridade máxima. Só estavam lá minhas papinhas de bebê. Comia estes potinhos com frutas e legumes amassados com um enorme prazer. As garrafas de vodka, rum, gim e similares foram todas colocadas em um grande saco de lixo que deixei do lado da porta dos fundos. Não senti nem a vontade de dar o derradeiro gole de destilado. Os ventos estavam mudando.

Deitei em minha cama e tive uma sensação de aconchego que me lembrou a infância. Aquelas noites das férias de julho. Quando dorme-se tarde e as pernas esticadas sentem um friozinho inicial debaixo das cobertas. O geladinho vai dando espaço ao morninho protegido pelo cobertor

Foi uma noite linda, sonhei com o meu pai. Aposentaram ele da Marinha depois de uma explosão que aconteceu próxima a ele, no porão de uma corveta. Ganhou uma surdez no ouvido esquerdo. Relativamente jovem e sem saber o que fazer em casa, virou cinéfilo. Assistia filmes compulsivamente. Depois de assistir qualificava-os. Os que poderiam ser vistos e os que deveriam padecer no esquecimento. Os primeiros iam para a estante de VHS, com um carimbo na capa “INDICADO”, os segundos eram jogados no fundo da garagem de nossa casa e acabavam virando ninho de baratas e outros insetos rasteiros. Um dia minha mãe e irmã se juntaram para convencê-lo a parar de fazer isto. Ele gastava quase todo o seu soldo comprando filmes. Chegou a abrir, somente no papel, uma locadora para facilitar as aquisições dos vídeos. As duas se juntaram para apertar o velho “Porque você perde tanto tempo dizendo o que os outros podem ou não podem ver?” “Ninguém nunca pegou um filme seu para assistir” “O último sapato que comprei para Paula foi há um ano”.

Depois deste dia meu pai nunca mais assistiu um filme. Ficava sentado na varanda observando os dois dobermans que tínhamos em casa. Eles latindo para o muro, brigando entre si, comendo qualquer pedaço de galho seco que caísse das árvores enraizadas no quintal Ficava tão compenetrado nos cachorros que tinha dias que nem almoçava. Somente café da manhã e jantar.

No sonho que tive estava sentado ao lado da cadeira dele. Conversávamos muito. No quintal, não havia cachorros. Somente as árvores. Foi uma noite ótima.

Despertei deste sono maravilhoso com meu celular berrando. Abro os olhos e o aparelho estava na minha mão. Já devia estar tocando por horas e eu, em um sono tão profundo, o peguei com a mão e não atendi. Sempre faço destas coisas dormindo.

“oi Dana”

Ela estava desesperada. Contou uma história pela metade. Disse que um cara que era obsessivo por ela, um ex amigo dos seus pais que chegou a ser seu tutor. Este cara queria me matar. Que ele já tinha vasculhado a minha vida, já sabia de tudo. Ela parecia estar falando a verdade. “Foge!! Foge que eu vou te encontrar! Agora que estamos nos acertando eu não quero te perder!” No meio da conversa ela desliga o telefone.

Fiquei pensativo. Lembrei daquele gordo que comeu Dana perto da minha casa. Minha casa estava vasculhada! Nunca acreditei em coincidências.

Estava tremendo. Não sei se era medo ou abstinência do Álcool. Fui na cozinha, peguei uma papinha para comer. Encostei no balcão e vi o saco de lixo repleto de bebidas. Sem pensar duas vezes misturei vodka na comida de bebê e me alimentei.

Continua...

8 de mai de 2007

O Copo, o Relógio e o Telefone IX




Por Fastolf Brambel - Desafio Caixa Preta II

Parei e ouvi. Encostada na porta sentia minha respiração tremer suas estruturas de cima a baixo.
Jan, Jan... Difícil acreditar como alguém consegue estar tão bem representado em meus sentimentos, exatamente em cima da linha que divide o amor e o ódio. Dois sentimentos tão intensos quanto semelhantes. Tão gostosos quanto desprezíveis. Ambos, os dois, ao mesmo tempo.
Fiquei ali por mais alguns segundos. Acho que ele me definiu bem. Vicious as wild and dangerous. Um animal selvagem. Selvagem de livre, de solta, idependente de tudo. De tudo menos de Jan. É, e perigosa ao mesmo tempo. Perigosa da puta que me sinto toda vez que entro em casa, toda vez que sinto, da porta, o cheiro de Mauricio que insiste em infestar o meu lençol. E agora?
Abri a porta. O desgraçado continuou sem nem mudar o passo. Iria embora sem ao menos tentar?

-Jan-Luc Dutrés! - disse brava e decidida.

Ele lentamente olhou para trás com aquela cara de bobo incrível e aquela olheira de homem falido.

- Entra, seu imbecil.
- Tem certeza?
- Não pergunte duas vezes...

Ele entrou.

- Quer água? - perguntei.
Estava com raiva. Durante tempos some da minha vida e aparece, assim, transformando todos os meus sonhos em um grande pesadelo. Querendo desesperadamente dizer que me ama mas provando a cada segundo que é incapaz de amar até a si próprio.

- Não, obrigado... Não quero nada que tenha menos de 40% de álcool.

Não disse? Idiota! Batendo copos e garrafas preparei o drink enquando ele discursava sobre sua inútil e miserável vida e jogava mais e mais indiretas sobre o meu tão bem sucedido emprego. Tentativas de explicações sobre fatos que eu nem conhecia.

- Tó.
- Que isso?
- Bebe e não me enche. - sim, eu precisava ser hostil.

Depois de uma leve cheirada veio o gole guloso. Fui má, bem má. Dei a ele o fim que ele queria. Vodka barata, uisque nacional, pinga de segunda e absinto paraguaio. No mesmo copo coloquei todos os restos de garrafas encostadas a anos, de outra vida, de outra Dana. O coitado já estava naquela fase do ciclo vital masculino quando qualquer golinho é um porre. Desesperos de um fígado maltratado. E eu sabia bem o que estava por vir... Aimeutapete!

- Dana, fiz meleca.
- Uuuuuiiii Jan, você é um porco!!!!!
- Eu tô mal, Dana... preciso de você.

Era a hora das declarações de um bêbado acabado.
- Nãonãonãonão... eu te entendo, te entendo... entendo. Não fale nada. Euseieuseieusei. - disse ele

Sim, claro... fazia todo sentido!

- Mas se eu fosse você abaixaria todas as minhas armas... todas! Me perguntaria por que demorei tanto. Poooor quê. Mas deus sabe que eu não sou você, e se eu fosse não seria, assim, tão cruel... Porque esperar por seu amor, Dana, não é assim tão fácil.
- Cala essa boca, Jan-Luc.
- Eu nunca soube te dizer porque meus dedos ficam inquietos quando te vejo. Nunca soube contar porque sorrio para tudo quando você está perto. Porque olho para baixo quando você chora, porque seguro o folego quanto te abraço, Dana. Eu sou um homem acabado e você é o...
- Jaaaaaaaan. Fica quieto, por favor. - gritei alto, bem alto. Muuiiito alto. Não queria ouvir nem mais uma palavra.

Puxando pelo braço o levei até o quarto. Desabotoei sua camisa enquanto ele, com uma absurda cara de assutado, permaneceu imóvel. Botão por botão, me esforçando ao máximo para não cruzarmos olhares.

- Tira essa calça, Jan.
- Dana, eu...
- Tira, Jan, que saco. - é, ele estava assustado.

Tirou as calças afobado, apressado, como se fossemos chegar à algum lugar. Tirou as meias e eu interrompi antes que ele pensasse em encostar naquela cueca.

- Passarinhos na gaiola, fazendo o favor.

Puxei a coberta até seu pescoço, afofei os cantos para que o ar gelado não atrapalhasse uma quente noite de bons sonhos. Queria, realmente, que o sonho fosse isso. Que acordássemos lindos e contentes em uma cama grande em um quarto branco. Beijei sua testa e sussurei algo em seu ouvido seguido de um boa noite carinhoso.

- Vai acordar novo, Jan-Luc. Descanse.

***

Acordei com o sol que batia em meu rosto. Mas acordei bem, disposto. Quase feliz. Lógico que com um pouco de peso na consciência por tudo que fiz, tudo que fui e quase o que sou. Mas eu não sou assim... Ah não, não posso ser.
Enquanto me esforçava para segurar minha bexiga corri para o banheiro. Só reparei na volta que Dana dormia no sofá.
Com cuidado preparei nosso café da manhã. Suco de laranja espremido a mão para não fazer barulho. Sanduiches de queijo e presunto. Sim eu sou metido e mexi na geladera. Precisava de algum tipo de iniciativa, não?!

- Dana? Daaana? - tentei acordá-la com jeito, baixinho... um leve toque em seus obros e uma sacudidinha carinhosa. - Eu fiz café! Quer dizer, café da manhã, porque o café mesmo eu não achei.

Ela olhou meio confusa com apenas um de seus absolutamente incriveis olhos azuis aberto enquanto franzia da testa ao nariz.

- Ai, Jan, não precisava...
- Mas eu quis!

Voltei para pegar a refeição e não consegui evitar que ela caísse de novo no sono. Talvez o mundo detrás daqueles olhos fosse muito mais interessante... O que certamente é. Eu espero...
Cheguei bem pertinho, sem a bandeja, e coloquei na cabeça que não levantaria daquele sofá sem minha devida atenção, sem meu pedido de perdão, sem a recompensa por não mais querer ser um completo idiota. Talvéz só meio idiota.

"Arrisco um beijo?", pensei. Arrisco, é só bom dia!... Ai, não... sim... para e vai e rápido e devagar, ação, reação... Vai Jan, vai!
Dei um leve beijo demorado e carinhoso em sua bochecha rosada. Dana abriu os olhos, me olhou e sorriu.

- Bom dia.
- Desculpa, Jan. Tô cansada, caí no sono. - tentou falar enquanto se espreguiçava, tentou se espreguiçar enquanto falava - Bom dia.

Para um ser tão preocupado em ação e reação acabei saindo de mim. Perdi a noção, esqueci do meu mundo e do dela, assim como ao dormir esqueci, de propósito, do mundo real. A beijei de novo, só que agora mais devagar. De olhos fechados, encostei meus labios em seu rosto enquanto lentamente o acariciava. Ela nem reagiu. Pensei em falar alguma coisa mas achei que seria melhor ocupar a minha boca com a dela, ou a tentativa de... Seria no mínimo mais prazeroso.

Assim que me desloquei da bochecha para a boca ela segurou com firmeza no que me resta de cabelo. Me puxou para perto, me chamou para si. Eu já não era mais eu. Dana não era mais Dana. Eramos uma loucura qualquer.
Da boca para o pescoço, de meus cabelos para minhas costas peladas. Em meio a trocas de toques e carinhos minhas roupas voltaram a habitar o chão enquanto as dela prefiriam o abajur apagado. Ignoravamos os passarinhos, as buzinas, os cachorros e o celular que tocava. Fui, aos poucos, descobrindo a Dana que tanto sonhei... Desci beijando os ombros leves, os seios fartos, o umbigo curvo... Senti suas mãos arranharem as minhas costas ao sentir cada vez mais seu cheiro de mulher, seu gosto de mulher, assim, em um ato de amor. Paixão. Amor. Loucura.
Só me satisfiz depois de sentir Dana por inteiro. Depois de vê-la, imóvel, esparramada no sofá.

- Dana, eu...
- Shhhhhhhhhh. Vem aqui.

Encostei minha cabeça em seu peito. Me senti muito mais e muito menos Jan-Luc. Um barulho estranho nos desviou a atenção.

- Aideus. a porta!!!!!!
- Que porta, Dana???
- Ele tem a chave.
- Ele quem? Que chave?
- O Maurício...


Continua...

7 de mai de 2007

O copo, o relógio e o telefone VIII



Por Flavia Melissa - Desafio Caixa Preta II

Os dias se passavam mas nada daquilo passava, tudo o que invadia minha lembrança era a lembrança dela, Dana, Dana, como eu queria que ela nunca tivesse atendido ao celular na primeira vez em que liguei, pelo menos o meu mundo teria aquele mesmo significado que teve um dia, ou melhor, nenhum significado. Sim, porque naquela época eu não via sentido nenhum em coisa nenhuma, e era feliz sem precisar ficar me perguntando o que é que afinal de contas andava errado.

E de repente ela havia aparecido na minha frente, linda e louca, confusa como uma criança que tenta entender como é que, afinal de contas, Papai Noel nunca havia existido. Foi assim que a conheci, foi assim que ela entrou pela primeira vez na minha vida, linda e louca, confusa e louca, esperneando diante do táxi e da chuva que caía no chão.

- Por favor... Acabei de ser assaltada, levaram tudo e eu to aqui nesse fim de mundo, será que você pode me dar uma carona no seu táxi?

E como não deixar que ela entrasse, e como não permitir que ela se sentasse ali ao meu lado, e como não perceber o calor que emanava de sua pele no momento em que nossas pernas se encostaram, por um milésimo de segundo? Meu celular tocava insistentemente, ele tocava e gritava e eu não percebia, até que ela me pediu, com aquela voz tremida de quem havia perdido uma parte de sua vida, “me empresta seu celular?”, é claro que eu empresto...

Ela era linda e tinha aquele ar assustado, havia chorado e estava descabelada e molhada, toma, pega aqui o meu casaco, se seca... Tem uma meleca aqui no canto do seu rosto, olha, se limpa... Fica tranqüila que agora você está a salvo, olha, se seca...

Ela usou meu celular, cancelou cartões de crédito, ligou para a mãe enquanto a chuva caía forte e fazia com que nos déssemos conta de que Deus, o Universo, a Força Criadora ou o que quer que fosse não dava a mínima para ladrões e bolsas roubadas, apenas ligava para aquele aguaceiro que caía, apenas ligava para dois estranhos que se conheciam no interior de um táxi naquela avenida parada, em pleno horário de rush.

E eu fiquei sabendo da sua vida, eu fiquei sabendo de todas aquelas coisas que normalmente a gente só sabe depois de muito tempo, e quando vimos que o transito não andava de jeito nenhum nós descemos do táxi ali naquela esquina e entramos naquele café e começamos a beber todo o conhaque que eles tinham pra preparar aqueles cafés especiais... E quando me dei conta, ela estava nua, montada em cima de mim, olhos fechados e eu pedindo que ela abrisse os olhos, para me ver refletido naquele reflexo... Holografia é reflexo do reflexo... Mais um conhaque por favor.

Às vezes eu ando na rua e fico me perguntando se ela realmente existe. Se existe como uma pessoa de carne e osso, ou se é como vi na televisão outro dia desses, dessas pessoas que a gente inventa e acha que existe, que acha que é de verdade, mas que na verdade não existe a não ser dentro da nossa cabeça...


Eu sou uma holografia desde Dana, só existo a partir da imagem minha que ela reflete, só existo em função de Dana, que não sabe como eu era feliz antes de tudo isso começar, antes que todo o brilho que existe nos meus olhos fossem o reflexo do brilho dela que existe em mim, esse reflexo de luz do sol que bate no metal da janela do prédio vizinho, reflete na mesa da sala e cega meus olhos, enquanto eu penso no que fazer para que ela me escute... Apenas me escute... Não são as palavras que eu quero ouvir de você, não é o que eu quero, não diga... E se você soubesse como seria fácil me mostrar o que você sente... Você não precisaria dizer que me ama, pois eu já saberia...

Dana... Dana...

2 de mai de 2007

O Copo, O Relógio e o Telefone VII


por Alice Salles - Desafio Caixa Preta II . .




Pronto. Eram assim que os dias se passavam pra mim enquanto a silhueta de Dana não se fazia presente na parede do quarto... quarto? Que quarto, Jan-Luc? Esse nome me soava estranho. Levantei a cabeça, era a força que tinha guardada e a usei para levantar a cabeça e o quarto girava ao som de um barulho qualquer daquele quarto qualquer onde haviam me esquecido. Precisava sair dali e jurar pra mim mesmo que o tempo que passou não era real, foi sonho. Dana, Dana... esse nome martelava em minha cabeça. Ela foi embora, será que foi? Será que eu fui embora? Será que parti? Não sei. Preciso encontrar meu celular que é meu único meio de encontra-la. Dana, Dana, será que eu deixei você ir?
.

*** .

Duas horas e meia nesse troço, nessa fila que não anda. O sol está meio de lado, como quem diz que cansou de girar. O me celular está no bolso da jaqueta preta, a gola alta do blusão de frio está pinicando. Maldita Tia Luzia, pra que fazer tanta coisa de tricô que só eu uso? O Sol continua cansado e a fila não anda, só quero um café, desses duplos, enormes, pode ser com conhaque, pode ser livre de gordura, pode ser claro, escuro, médio e pode até ser de outra pessoa, só quero um café. Faz dias que Jan-Luc não liga e nem dá as caras, a fila não anda. Deixei arquivada a última mensagem avisando das dezessete ligações no meu celular, precisava me agarrar a algo enquanto tudo não fazia sentido. Tudo não fazia sentido. A fila andou.
.

***
.

"Sei que deve estar aqui esse celular."
Procurei naquele maldito quarto, procurei pela sala daquele lugar que estava fedendo a tudo que me lembrava do que não queria ser. E meu celular não aparecia. Não adiantava nem tentar ligar para ele, nessa altura já estava sem bateria e eu sem esperança de nada. O sol estava caindo, na parede se formava uma sombra que lembrava aqueles relógios de sol antigos marcando a hora de cair fora dali. "Quem mais tem o celular de Dana?" . Perdi o tempo e saí, era noite. Fui andando pra longe das luzes, das mulheres, do cheiro de vodka por todos os lados. Será que havia tempo? Alcancei meu bolso esquerdo e encontrei minha carteira, estava vazia. Sacanagem das bravas, como fui parar ali? Fui andando até onde não avistava mais registro daquele mundo. Eu estava decidido a encontrar a única pessoa que me dava qualquer coisa parecida com a paz que meu pai costumava falar. Estava decidido. Passei em um caixa eletrônico e tirei uns cem contos. Acho que era o suficiente.
"Como ainda tem dinheiro na conta?"
Obra divina, meu caro.
.

***
.

Com meu café tenho que segurar o choro.
É o café o único que me entende. É o pobre café com conhaque que eu pedi. Estou nesse lugar quentinho, nesse lugar bonito, cheio de gente bonita com cheiro de sabonete e com casacos bonitos de baixo desse céu bonito e preto sem estrelas. Estou ali, quieta com o meu café. O café olha pra mim e pede paciência. Meu celular não toca, maldito. Não toca. Eu tento não pensar. Quanto mais penso mais vazio fica o peito e nada mais de loucuras, quero um tempo. Dois minutos e o celular toca, Jan-Luc brilhando na tela colorida do meu motorola. Do outro lado muito barulho e uma voz de mulher.
-Alôouu...

-Alô? Quem tá falando?
-Ai querida, teu home esqueceu o celular por aqui, sabe?
-Por aí onde? Home!?

-É... aquele moreno, dona. Um de olho verdes. Sabe?

-Sei sei, mas onde é aí?
-Ah dona, aqui é uma casa de... muléres, tá sabendo? .

Dois segundos. Pausa. Gosto de dois segundos, não gosto de três, nem de cinco, gosto de dois.
.

-Enfia essa merda desse celular onde te trabalho de achar, minha filha.
.

Desligar o celular na cara da rapariga foi fácil, o difícil foi o choro engolido do depois. O difícil foi pedir consolo pro café com conhaque. O difícil foi alcançar a nota de dez reais na carteira pra pagar mais um café desses. Carregado. Preciso de algo carregado.

"Não, me vê dois!"
Era tarde e meu celular estava quieto novamente.
.

*** .
"Ah, vou pra casa dela, certo que a encontro por ali mais cedo ou mais tarde." Não me lembrava de nada direito, depois dos porres, depois das cortadas, depois das garotas. Garotas? Sei lá. Peguei um táxi e pedi pra me levar até a sua rua. Aquela rua perto daquela avenida famosa, sabe qual é? O mané do taxista me olhou com cara de poucos amigos, eu mesmo nunca tive muitos amigos mas quando há grana amigos são fáceis. .
-Meleca!

-Que foi motorista?

-Hoje é dia de procissão! O senhô tá vendo? A gentarada na rua?
-Não vai dar tempo assim! Dá um jeito senhor!
-Não dá, tá tudo parado...
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Pulei do táxi pra fora, milhares de pessoas por todos os lados, gente, gente, gente da pior espécie: cheios de fé em milagres. Era de um milagre que eu precisava. Milagre.
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*** .

Eu andei pelas ruas com o meu quinto café com leite e conhaque, já estava meio bêbada. Via muitas pessoas pelas ruas mas não ligava, tudo que me importava era chegar em casa e dormir com o meu travesseiro entre as pernas, com meu cobertor quente e com a televisão ligada. Queria minha televisão ligada no mais alto volume. Queria Jan-Luc sem culpas mas nunca o teria. Desde quando estava apaixonada assim? Não fazia idéia, tudo era estranho. Chegando perto da minha casa vi mais e mais gente, era uma procissão! Maldita Fé! Estava cansada, queria meu quarto. Com dificuldade e empurrões cheguei até à portaria. Seu Matias me deixou entrar e disse qualquer coisa que eu não entendi. Graças! Odeio jogar conversa fora com o Seu Matias. Subi as escadas porque o elevador não chegava. Morava no quarto andar e o barulho da rua estava por todos os lados, gente louca bem perto de gente louca, gente louca por todos os cantos. Meu copo de café com conhaque já estava vazio e uma mão segurou a minha quando girei a maçaneta.
. Esfreguei meus olhos. .

*** .

Ela esfregou os olhos e eu já estava delirando no momento, nem esperou eu dizer nada, não disse nada, só gritou! Como se grita um guaxinim encurralado. Como esperneia uma criança com fome... ela gritou e me empurrou e dizia no meio de seus gritos coisas inteligíveis. Tentei segurar a porta e fiquei com medo de ser chutado mas quem ligaria? Estava em ponto de ameba, minha barba por fazer a dias, meu cheiro misturado com vodka, lençol barato e quindim com uma boa dose de suor... ela continuava brava até uma hora que parou. Parou seca na minha frente, cara de ódio, lágrimas nos olhos e uma confissão.
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- Se tivesse entendido que eu queria só você não ajudava. Eu te queria e agora te quero longe. Você não quer nada e tem a cara de pau de aparecer na minha casa, saia daqui sem nem pensar em dar um passo de volta. .

Tinha algo nos olhos dela, uma frieza triste enquanto a lua brilhava na janela do corredor, a lua cheia, gorda e fria brilhando entre nós. Fui me afastando e ela bateu a porta na minha cara. Não sabia mais o que fazer. Fiquei um certo tempo parado, olhando pra lua que mais parecia uma nádega imensa e peluda e gritei pra todos ouvirem: .

- OH BABY, YOU'RE SO VICIOUS!

...continua...