23 de jun de 2007

Cumplicidade e Curitiba







por Felipe Belão Iubel

Conto nº 04
Idéia nº 1.012.345
Parte1

Curitiba é o tipo de cidade onde o clima é apenas um reflexo do comportamento das pessoas que a habitam. Pode ser frio e desagradável pela manhã; quente e seco durante o almoço; ou temperado e aconchegante durante a noite.

De todos esses, o temperado e aconchegante é o tema dessa história. Porém, a secura e a frieza vão aparecer de tempos em tempos.

Bom, vou me apresentar, meu nome é Cristiane. Mesmo número de sílabas de Curitiba, apesar de existirem discussões a respeito do “a” do hiato bem no meio do meu nome. Aliás, ter um hiato no nome é sinal de má sorte, pelo menos para mim, em meus relacionamentos foi assim até hoje. Como um hiato, acabamos sempre separados, um em cada casa ou sílaba. Além do número de sílabas, meu nome também começa com “C”, o que é a explicação mais óbvia para ser tão igual à cidade, principalmente no que se refere aos termos aconchegante e temperado. Inclusive é nesse tipo de clima que essa história começa.

Conheci “S” enquanto caminhava no Parque Barigui. Ah! O Parque Barigui. Recanto das espécies mais bizarras de toda cidade. Pessoas Sem perspectiva de diversão, pessoas Sem perspectiva grande futuro fora da cidade, pessoas Sem perspectivas de simpatia, pessoas Sem perspectiva de arrumar um namorado, como eu. Também não precisa me julgar, gosto de caminhar. Além disso, já tenho meus 32 anos e, Se eu não me cuidar, vou chegar na idade de Cristo com cara de quem foi pregada na cruz. Enfim, eu estava caminhando no parque e passei na ponte que fica perto de onde o pessoal gosta de fazer alongamentos. O rio estava mais fedido do que nunca, mas a gente nunca fala disso, afinal em Curitiba gostamos de fazer de conta que a cidade é perfeita.

Continuei andando, inebriada pelo aroma de valeta, até que vi um rapaz bonito, loiro, cabelo bagunçado, minha idade, meio barrigudinho, mas não vi problema nisso. Caminhei propositalmente para perto dele, mas mostrei absoluta falta de interesse e desdém, afinal é isso que as mulheres de Curitiba gostam de fazer em meio à frieza da manhã, da tarde e da noite. Ele nem percebeu que eu existia, mas eu percebi que ele era o tipo de curitibano que Se encheu de tentar trocar um olhar com uma curitibana por causa de todos esses infortúnios de comportamento.

Mas, e é importante reconhecer que esta foi a razão para meu comportamento, eu ainda estava inebriada pelo aroma do riacho doce do parque. Então tropecei. Estava apenas a dois metros de distância dele. Claro que, como um homem gentil que descobri depois que ele era, S me ajudou a levantar, perguntou se eu estava bem e a história acabou por aí naquele dia. Culpa da cidade. Aliás, nós curitibanos adoramos colocar a culpa na cidade.

Fui para casa para terminar de escrever meu conto. Esqueci de dizer Sou escritora. Escrevo uma coluna a cada quinze dias para um jornal de grande circulação na cidade. Dizem que é um bom jornal, mas eu Sei que não passa de uma resenha da Folha e do Estadão do dia anterior. Eu também não Sou grande coisa em termos literários. Enfim, gosto do jornal. Do jornal e da cidade, mas minha coluna é praticamente desconhecida. O povo de Curitiba acha que eu fujo do assunto no meio da história. Eu culpo a cidade.
Passei o resto da semana pensando em S e no meu tombo, afinal meu joelho ainda doía. Eu pensava e Se eu o encontrar novamente e Se eu não o encontrar? Perguntas não faltavam e acabei indo ao parque naquela semana inteira. Fiquei até amiga do rapaz que vendia água, o que não é normal em Curitiba. Eu culpo a frieza da manhã.

Após uma Semana de Solidão e Silêncio. Eu estava quase desistindo, mas Sempre fui persistente. Persistente ou não, nunca me Senti tão Só. Até que, no domingo e no parque, encontrei-o, com numa música do Chico. Sentei perto do mesmo lugar em que ele fazia alongamento. Fiz de conta que lia o jornal com cara de concentrada. Ele tinha um Semblante Sóbrio e Sábio para quem faz apenas alongamento. Tamanha foi minha Surpresa quando ele veio em minha direção e perguntou: “Como está seu joelho?”

Claro que eu tinha enfaixado minha perna sem necessidade. Afinal, precisava dar uma deixa para ele perguntar alguma coisa. Aí começou minha história com S. E Se eu não tivesse enfaixado minha perna? - eu penso hoje. Teria sido bem melhor. Sou capaz de apostar que Sim: mais Simples, menos Sofrido. Eu culpo a cidade, o tempero e o aconchego. E quem não culpa?

CONTINUA...


5 comentários:

Felipe "Tito" Belão disse...

mas eu amo Curitiba

Alice Salles... disse...

Que que é isso!?
Alguém vai morrer nessa história!?
Eu adoro essas esquizofrenias de Felipe...

"Também não precisa me julgar, gosto de caminhar. Além disso, já tenho meus 32 anos e, Se eu não me cuidar, vou chegar na idade de Cristo com cara de quem foi pregada na cruz."

Não parei de rir, depois de tanto chorar há alguns minutos atrás...

mercedes disse...

Hmmm. Eu acho que o nome de S é Sérgio. Sérgios fazem meninas sofrerem. Sempre tive medo deles!
Quando não são maus, são Serginho...mas fica pior. Todo Serginho é pequeno e perigoso. Todo mundo já caiu do cavalo com um serginho!

Hm...teorias mercedísticas inúteis nessa manhã gelada. Agora tenho que pensar o que vou fazer com esses dois.

Alice Salles... disse...

ahhh, a gente continua então?

Carolina Garofani disse...

eu só conheço um sérgio, e é o menezes!
mas as meninas suspiravam na aula dele qdo ele usava camiseta justinha

huahuahuaahua

é... curitibanos sao frios