27 de mai de 2007

O semi-morto, o caderno e o bebê da capa

Conto no. 1
Por Flavia Melissa
Desafio Caixa Preta III



Eu fui a primeira coisa que ele viu quando abriu os olhos. Passados tantos anos, acho que ele esperava coisa melhor quando abriu os olhos e as pupilas me encararam pela primeira vez. Mas eu estava ali, ali do lado, dando sopa, de bandeja. Então ele abriu os olhos e me viu. E, é, foi isso aí.

Eu já tinha ouvido muitos papos a respeito daquele cara deitado ali, parecendo morto. Muitas vezes eu tinha me questionado se ele estava, mesmo, morto, mas o “bip-bip” da máquina ao meu lado não me permitiram duvidar de que ali havia vida ainda. De qualquer forma, prá mim, ele havia ganhado o apelido de semi-morto.

Eu tinha tido a oportunidade de acompanhar, por todos aqueles anos, o desenrolar da história daquele sujeito ali deitado. Ele recebia visitas sempre, vinham a mãe, o pai, os tios e primos. Uma vez veio até mesmo a velha avó, completamente gagá. Chegou, sentou-se ao meu lado e simplesmente me pegou no colo e começou a conversar comigo, me elogiando. E eu pensei, diacho, que é que essa velha fedendo a naftalina tá fazendo aqui comigo, passando a mão na minha bunda? Mas, de qualquer forma, a família do quase-morto era boa gente.

De todos, o que eu mais gostava era o irmão mais novo. Era a visita mais frequente. Dia sim, dia não, vinha ele, e eu já era capaz de reconhecer que era ele que vinha pelo barulho dos passos no corredor. Na verdade não era o barulho, mas a vibração dos passos, e quando ele entrava no quarto e fechava a porta a presença dele era assim tão forte que eu chegava a tremer inteiro, às vezes quase caia no chão. Ele entrava, olhava o irmão deitado ali, semi-quase-morto, se sentava ao meu lado e começava a falar, e a falar, e a falar.

Ele tinha esse caderno, que mantinha desde que havia começado a escrever, e que, pelo que eu havia entendido, tinha sido uma recomendação da analista que cuidava dele. Esses analistas são pessoas engraçadas. Um menino tem um irmão mais velho quase-semi-muito-quase-morto, sofre horrores por causa disso e tudo o que mandam o menino fazer é um caderno.

Mas não era qualquer caderno. Era um caderno grosso, capa bem gasta já, recheada de coisas coladas e escritas e remendadas até, porque era um caderno bem velho. A capa era grossa e tinha figuras, e as figuras mostravam um pai, uma mãe, o semi-muito-quase-morto e um bebê de colo. E não precisa ser muito inteligente ou esperto prá sacar que aquele menino dono do caderno era o bebê da capa.

O irmão chegava com o caderno, se sentava ali na poltrona, às vezes na cama com o irmão semi-morto-mais-morto-do-que-vivo e lia coisas do caderno. Contava coisas da escola. De casa. Do cachorro que estava bem velho e que tinham sido convencidos a sacrificar. De pesadelos que ele tinha. Da primeira namorada. De ter se formado na escola. Da morte do melhor amigo do prédio.

E ele falava também de outras coisas no caderno, falava de guerras, de filmes, de video-games, de mulheres famosas, de doenças novas, de políticos corruptos e de aviões que haviam caído. E ele falava, e falava, e falava e não parava nunca de falar e eu adorava ouvir aquelas histórias porque, com o tempo, também fui conhecendo a história daquele menino, irmão mais novo, que havia começado a fazer análise porque não aguentava mais ter que cumprir expectativas que haviam sido colocadas sobre ele desde que o irmão mais velho tinha se transformado naquele semi-quase-morto-mas-bem-morto-mesmo.

Com o tempo, fui me transformando em parte da família. Eu gostava daqueles momentos, algumas vezes chegava a me emocionar de ouvir os relatos no caderno, chegava a ter vontade de ser aquele semi-quase-super-morto só prá ter alguém que me visitasse e me contasse histórias dum caderno velho e gasto. Quando dormia, de noite, chegava a sonhar com o dia em que o semi-quase-mais-que-morto abrisse os olhos e visse o irmão mais novo e o caderno grosso e gasto de capa dura.

Mas um dia, o semi-morto abriu os olhos. E eu fui a primeira coisa que ele viu. Com o desespero, ou susto, ou vontade de se levantar da cama ele bateu em mim com toda força e eu caí no chão, me espatifando em milhares de cacos. A flor de plástico, que por anos a fio havia me acompanhado, também caiu no chão, rolando para debaixo da poltrona. E eu, ali, em pedaços, fui varrido rapidamente com uma vassoura dura e áspera.

E daqui, desta lixeira onde me encontro, só posso imaginar a cena dos dois irmãos, sentados lado a lado na cama, lendo juntos todas as memórias que me fizeram companhia ao longo de tantos anos.

9 comentários:

Alice Salles... disse...

Menina! Que que é isso!?
Eu comecei a ler achando que era uma coisa e se transformou completamente!
Adooorei e preciso reler...
Aliás, sempre que releio algo por aqui vejo coisas que eu deixei passar e que eram tão perfeitas...
Beijos

Felipe "Tito" Belão disse...

Genial!!!!

Adorei o ponto de vista do objeto ... e adorei o caderno.. era o que uma pessoa no estilo melissa ou melisso fariam em uma situação dessas, certo?

hauhauah

Beijos

mercedes disse...

Muito bom, Melissinha.
Acho esse analista genial. Fazer este caderno seria a única forma de entregar para o semi-morto um relato de tudo o que aconteceu enquanto ele dormia. Bom demais!

Pobre vaso...

Beijoca

Carolina Garofani disse...

Realmente! Muito melhor que um album de fotografias, o caderno é a "arma" perfeita pro irmãozão descobrir o mundo pelos olhos do irmãozinho...

Muito lindo Fla!! Adorei!

Ick disse...

simplesmente , analiticamente, estranhamente. correto. cada olho ve de um jeito cada olhar analisa de uma forma.... caderninho ein.. rs. congrats.

Flavia Melissa disse...

eeeeeeeeeee
ick comentando!!!
adooooooro!

Fastolf.b disse...

Puxa, dona Flavia.
Muito bom!
O caderno, o vaso, a ideia, o tudo!!!!!!!!!!!

Fastolf.b disse...

Puxa, dona Flavia.
Muito bom!
O caderno, o vaso, a ideia, o tudo!!!!!!!!!!!

ghoren disse...

Nossa! já te disse que admiro quem escreve e, realmente, está história estava emocionante. Adorei sua criatividade.
beijo!