26 de abr de 2007

O Copo, o Relógio e o Telefone IV


Por Mercedes Gameiro - Desafio Caixa Preta II




Droga… Preciso comprar um lustre pra esse quarto. Que horror! Essa lâmpada ta pendurada aí desde que eu me mudei. Também...ninguém entra aqui mesmo... a não ser essa coisa. Olhaaa! Ainda dá pra ler o preço da lâmpada. A etiqueta só queimou um pouquinho. Quanto será que dura uma lâmpada? Tem umas coisas que eu nunca sei. Quanto dura um bujão de gás de 45 kilos? Na casa da minha mãe dura uns três meses, acho, mas eu já vi gente comprar gás só uma vez por ano…E quanto tempo dá pra guardar uma lata de creme nívea? Aquilo não acaba nunca! Que nem vicky vaporube. Alguém já ouviu falar de uma lata de vicky que acabou? E minâncora?
Quando será que eu vou ter um emprego decente que me dê grana suficiente pra me livrar desse estrupício? Se pelo menos ele não babasse no meu pescoço... Ai que nojo…vamo ae, querido…se empolga…eu não tenho o dia todo pra ficar nesse nheco-nheco. Toda vez que ele tira a roupa eu lembro da cara da minha mãe dizendo: “ você adora um salário mínimo…” Putz…se eu me apaixonasse por alguém que conseguisse ganhar dinheiro não tinha que aguentar esse velho babando o meu cabelo. Ainda bem que é ele que paga o salão…”

- Aaaaaaaah!
- O que foi, Dana?
- Sai! Credo! Você viu aquilo?
- Aquilo o que?
- Um homem. Tinha um homem ali na porta. Você não escutou?
- Não tem ninguém na porta, meu anjo…volta aqui e deixa o papai brincar.
- Ai..que medo…parece assombração! Ele gritou alguma coisa…
- Calma, nenem…papai tá aqui. Vem com o papai que ele te proteje.

“Papai…eca…doente!”

- Não…já chega. Hoje eu to nervosa, aflita, cheia de coisas na cabeça…a gente já brincou um monte, “papi”. Você já tá cansado e precisa ir pra casa.
- Ah….só mais um pouquinho…
- Não não não…não seja malvado. Já pra casinha…

Levantei, tomei um banho e me vesti enquanto ele ia embora, graças a deus. Se não fosse ele, minha vida já teria desmoronado, tadinho…eu devia tratá-lo melhor, mas eu sei que homem gosta de mulher complicada então eu prefiro fingir que estou cheia de problemas, assim ele aparece sempre e deixa dinheiro pra mim. Se não fossem esses dez mil de mesada e o apartamento que ele me deu, eu estaria debaixo da ponte, vendendo o corpinho e adeus faculdade, adeus planos lindos, adeus viagem para Paris…quer dizer…vendendo o corpinho eu já to de qualquer jeito, mas pelo menos é pra um só, e uma pessoa que apesar de fazer essa nhaca no meu cabelo, me respeita e cuida de mim. Quem cuidaria de uma vagabundinha igual a mim? O Jan? ha! Quem me dera...quem me dera que ele não fosse um loser, um atrapalhado, um bêbado quebrado...
Saí de casa era 1:15, queria ter almoçado, ai que mal humor! Minha perna estava dormente de ficar suportando o peso do Maurício em cima de mim. Quando é assim, fica horrível descer a escada porque as pernas tremem. Por sinal, quando desci vi que uma parte do corrimão está quebrada. Eu vou chamar o síndico! Pensei ter ouvido alguém cair da escada mais ou menos na hora do grito, mas sei lá…eu tava tão concentrada no preço da lâmpada… preciso colocar lente, não to enxergando bem de longe. Péssimo!
Enquanto descia pensando no síndico imaginei todas as mãos que correram por ali. Mãos sujas de sei lá o que. Pensei na mão do açougueiro que vem entregar carne pra velhinha do 503, com o avental ensanguentado, parece um assassino e não deixa de ser. Mão de criança suja de chocolate, bolo, terra, cachorro, bola, muro. Mão de namorado que fica malhando na escada e sei lá o que faz com a mão depois toca o corrimão e vai descendo devagar para sentir todas as reentranças da madeira...que nojo de tocar nisso...eu quero lavar a mão...eu vou chamar o síndico! Mas só quando eu voltar.
Assim que saí do prédio liguei o celular. Dezessete ligações do Jan-Luc. Dezessete. Quem liga dezessete vezes para alguém? O que será que ele quer? O que será que ele queria me dizer ontem? Eu tenho medo que ele diga que quer ficar comigo. Eu vou querer aceitar e onde eu enfio o Maurício? Onde eu enfio o Jan para esconder do Maurício? O que eu faço? O que, Dana? O que? Eu vou ligar. Será? Vou. Será?

- Alô, Jan ?…
- Orra, Dana!
- O que foi, querido? Eu estava trabalhando e não vi que você ligou.
- Trabalhando.
- É. Um monte de reuniões entediantes.
- Entediantes.
- É…às vezes preciso fazer e dizer coisas que eu não gosto…o dia fica péssimo…ninguém merece a minha companhia em dias assim.
- Coisas que não gosta.
- Jan! você vai ficar repetindo tudo o que eu digo?
- Tá.
- Onde você está?
- No bar perto da sua casa. Vem.
- Bar a essa hora?
- Depois do meio dia não é alcoolismo.
- Ah…claro. To indo.

Olha ele ali…acabado, meu deus. Eu queria saber porque ele entrou nesse processo de se detonar. Era um cara bonito…agora é isso.

- Oi.
Ele me olhou com aqueles olhos de cachorrinho perdido…”o que eu faço pra te resgatar?”
- Dana…Danada…
- Uhuuu! O que é isso?
Eu dei um beijo no rosto dele. Cheiro de…vômito. Ui!
- Nada…tava pensando de onde vem o seu nome. Daaaaaaanaaaaaa.
- Você já está bêbado?
- Quase.
- Me dá isso.

Tomei o drink dele em um gole só. Argh. Ardido. De última. Rabo-de-galo. Drink de adolescente curitibano sem grana. Apontei para o bigode e avisei:

- Uma catota.
- O que?
- Panlangana.
- O que???
- Uma meleca! No seu bigode! Um tatu! Limpa.
Ele pegou um guardanapo de papel e limpou o bigode, depois olhou o guardanapo e me perguntou:

- Saiu?

Tinha saído e eu não sei porque achei aquele gesto tão sexy. Eu sempre adorei o Jan-luc, mas sexy? Ele é estabanado e bonitinho, mas não sexy…sei lá…hoje ele está…sei lá.

- Dana…a gente precisa falar bem sério. Bem sério. Muito sério.
- Vamos falar, Jan. Vamos sim. Bem sério. Mas não agora.
- De novo não Dana. O que é? Vai dizer que tem outro “projeto?”
- Não…agora eu quero levar você num lugar. Vem.
- Eu to a pé. Quer dizer…meu carro tá um pouco inviável.
- Não faz mal. Vem no meu.

Fomos para a garagem do meu prédio e eu estava me controlando para não beijar a boca daquela coisa. Se não fosse o cheiro ruim e aquela catota…ainda bem que foi. Eu podia por tudo a perder. Entramos no carro e eu assumi o volante. A ressaca de Jan estava gritante. Mesmo que ele tivesse tido alguma intenção de esconder, não consegueria. Mostrei pra ele um engano ressaquístico.

- Seu sapato…
- É tênis.
- Tanto faz. Tênis é um tipo de sapato.
- É…calçado, pisante, base, prancha, solado. Peça de calçado que cobre só o pé. Se fosse bota não seria sapato. Tênis é.
- Cala a boca?
- O que tem o meu sapato?
- Tênis.
- Sapato.
- Tênis.Tá trocado.
- Como assim?
- O pé direito tå no esquerdo, e vice-versa.
- Impossível. Se fosse assim eu já teria caído.
- Mas tá.
- É…eu caí.
- Mesmo? Onde?
- Na escada.
- Na escada? Que escada? Jan, onde você foi?
- Numa escada que você não conhece.
- Machucou?
- Nem. To legal. Tem caneta?
- No porta-luvas. Pra que?

Jan tirou os dois pés do tênis, pegou a caneta no porta-luvas.

- Qual que é o direito? – ele perguntou pra mim, com os dois pés de tênis na mão! Eu não acredito que ele não saiba uma coisa tão básica!

- Esse, Jan…claro.
- Por que?
- Porque essa curva do pé direito fica pro lado esquerdo. É assim que se vê. A curva, dos dois pés, fica pra dentro!
- Ah…por que ninguém me ensinou isso?

Eu não ia responder àquela pergunta. Ele escreveu "D" no pé direito do tênis e "E" no esquerdo. Chegamos. Eu ajudei o Jan a calçar o tênis como se ele fosse uma criança. Ele ficou com os dois pés no meu colo me olhando enquanto eu dava dois laços em cada um para que não desamarrasse outra vez. Que vontade de beijar essa boca... Mas eu não posso fazer isso. Acho. Não sei. Sei lá.
Subi a escada do prédio abandonado levando “o pequeno Jan” pela mão. Ele nem perguntou o que a gente estava fazendo lá. A confiança que ele tem em mim me impressiona. Tomara que nunca descubra o que eu faço pra pagar a faculdade. Tomara. Eu detestaria ver a decepção naqueles olhinhos tão… tão… nossa…os olhos dele estão vermelhos.
A gente entrou na última porta do corredor no terceiro andar. Era lá que eu queria chegar. Fazia tempo que eu achava que era hora de apresentar o Jan-Luc pra essa figura. Quando a porta se abriu, Jan-Luc não segurou a surpresa.

- Putaqueopariu! Que merda é essa?

O apartamento é lindo. No meio desse prédio inteiro abandonado, tem aquele mega loft modernézimo, super tecnológico, lindo! Eu adoro ver a carinha de surpresa do Jan. Ele fica lindo quando se deslumbra.

- Espera aqui, Jan. Eu vou buscar uma pessoa.

Jan: “Wow! Eu queria morar num lugar desse! Caralho! O cara deve ter muita grana…mas ué…pra que morar num prédio detonado? Só ele, num prédio todo ferrado. Depois eu que sou louco. Eu que bebo demais. Ta cheio de gente maluca no mundo, e acho que a Dana conhece todas elas. Tá ruim não contar pra ela que eu vi aquele gordo em cima dela. Meu, que raiva! Eu queria encher aquela bunda grande de bala. Se eu tivesse um revólver eu enchia. Que merda! Eu morrendo pra dar um beijo na mulher e aquele velho nojento…argh! Eu queria ter nojo dela. Droga, não tenho. Por mim, catava ela aqui mesmo… uou… nesse sofá ia ser o bicho!
A Dana entrou na sala bem na hora que eu estava limpando o dedo naquele sofá de pele de zebra, para me livrar de um pedaço de queijo que eu tirei do dente. Entraram… ela e um negão. Puta cara grande! Quem é esse cara? Isso não é brasileiro! Meu, não me fala que ele também pega a Dana que eu vou me jogar da ponte. Com o velho nojentão eu aguento, mas com esse cara, com essa pinta, com essa grana, eu to fora. Cara maió estiloso. O que ele gastou nessa roupa eu não ganho em cem anos. O preço dos óculos escuros dele paga um ano do meu aluguel. O perfume que ele usa, custa mais caro que toda a bebida que eu consumo em um mês. Mesmo com todo esse penhasco de diferenças entre “euzinho” e o negão, a Dana veio toda “Dana” me apresentar o cara.

- Meninos... esse é o Jan-Luc, meu amigo querido de muito tempo que eu adoro… e esse é o Mr. W. , outro amigo querido que eu adoro…


Continua…

6 comentários:

Carolina Garofani disse...

Mercedes do céu.
HAHAHAHAHAHAHAH. Amei cada palavra. AMEI!!!! Me peguei rindo que nem criança!

Anyway, obrigada por chamar o gordo asqueroso de Maurício, porque ele me lembra um Maurício que é exatamente assim - gordo, asqueroso, nojento, fedorento e babão. Jabba the Hutt.
Eca.

Alice Salles disse...

huahauhauhuah
dei mta risada tb!
o que é o Mr. W aparecendo na trama!? DEUS!

Gravata disse...

Grande W.

mercedes disse...

Gente, eu já reli isso um monte de vezes e toda vez que eu leio a parte da meleca eu dou muita risada!

Pareço uma louca aqui sozinha. Eu não ri assim quando escrevi. Por que será que to achando tão engraçado agora?

Felipe "Tito" Belão disse...

putaqueopariu...

mto bom! eu ri demais
cidãaaaaaaao.... nao entendi as referências... a nao saber direita e esquerda... ao rabo de galo.. hmmm

Beijos

Flavia Melissa disse...

seis notas, por favror!!!
qual é a música???